segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Debates – O beijo gay


Depois daquele beijo (Editorial)

Da Folha – 05/02/2014

Ao exibir no capítulo final da novela "Amor à Vida" um beijo amoroso entre dois personagens masculinos, a TV Globo atendeu a uma demanda que se intensificava nos últimos anos.
Em que pese a presença regular da temática gay na teledramaturgia nacional, levantava-se a reivindicação de um ato que selasse de maneira convencional o amor entre pessoas do mesmo sexo.
Este ato, segundo as convenções do gênero, é o beijo. Nada mais clássico, com efeito, do que as cenas finais em que galãs e heroínas longamente tocam seus lábios em sinal de união afetiva.
Consumado, o ósculo gay cumpriu seu papel de atrair audiência, provocar polêmicas e reverberar na mídia. Criticado por alguns, foi festejado por homossexuais, em alguns casos como se representasse a redenção da minoria discriminada.
A exultação decorre da hipertrofia midiática: as novelas infiltram-se de tal maneira no cotidiano da população que não raro se confundem com a realidade.
Não há dúvida de que a telenovela pode servir como termômetro moral e comportamental de um determinado momento da sociedade.
Se isso é verdade, o beijo entre pessoas do mesmo sexo passa a fazer parte de um repertório socialmente aceito. Talvez seja a chancela que faltava a um movimento crescente nas últimas décadas.
É forçoso reconhecer e lamentar, no entanto, que a homofobia, em parte como reação aos avanços, ainda resiste.
Enquanto se discutia o final da novela, a polícia investigava mais um caso de agressão a homossexuais ocorrido na região da rua Augusta, no centro de São Paulo.
Ninguém é obrigado a ter simpatia por gays ou gostar de ver dois homens ou duas mulheres se beijando. Daí não se segue, contudo, que seja aceitável a repulsa agressiva à homossexualidade.
Oscila-se, no Brasil, entre a atmosfera de tolerância –e até de celebração– e a rejeição violenta. A Constituição veta a discriminação por raça, sexo ou religião. Os preconceitos, porém, sobrevivem, enraizados em situações históricas e culturais.
Não se muda um país de uma hora para a outra –ou com um capítulo de telenovela. Mas, com todos os limites, o Brasil talvez venha a se tornar menos intolerante depois daquele beijo.


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Beijo gay: a Globo, como sempre, seguindo o imperialismo cultural de Hollywood (Artigo de opinião)

Do GospelPrime – 02/02/2014

O primeiro beijo gay exibido numa novela da TV Globo trouxe o alarde esperado dos habituais propagandistas da causa gay. Se não fosse por esse alarde, eu e muitos outros nunca saberíamos que no último capítulo de “Amor à Vida,” exibido na noite de 31 de janeiro de 2014, uma dupla de homens, Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso), fez papel de gays beijoqueiros.
Para quem acompanha Hollywood e a cultura americana, a imitação dos atores globais não mostrou novidade alguma e só era questão de tempo.
Uma jornalista da Globo fez contato comigo hoje, querendo minha opinião sobre esse beijo gay na novela “Amor à Vida.” Minha resposta a ela:
Confesso-lhe que não assisti ao tal beijo gay. Mas com a visibilidade que a Globo dá, com certeza esse beijo se configura em propaganda.
Por que é tão fácil para a Globo copiar os modismos dos EUA, em detrimento da saúde moral, espiritual e física das crianças e adolescentes? Minha opinião é a opinião que está na Bíblia, seguida por milhões de cristãos: beijos e outras carícias de natureza sexual, que devem ser reservados à esfera íntima, são apenas para homens e mulheres. Afeto e amor, que não sejam de natureza sexual, são bons e influenciam de forma positiva as crianças. Só o afeto e o amor deveriam ser expostos a elas.
Pergunte para um muçulmano da Arábia Saudita o que ele pensa do tal beijo gay. No mínimo, a resposta incluirá pena de morte para os beijoqueiros. A Rússia não tem esse radicalismo com pena de morte para homossexuais e, de forma muito apropriada, tem uma lei que protege crianças e adolescentes de propaganda gay. Sei que há muitos funcionários da Globo que apoiam o socialismo e têm um histórico de admiração pela Rússia. Deveriam dirigir a eles a pergunta: “Por que vocês não admiram a Rússia de hoje e suas leis de proteção às crianças?” Sou cristão e sou a favor de se proteger crianças de propaganda gay, inclusive de propagandistas beijoqueiros.
Em vez de seguir fielmente a propaganda hollywoodiana de exposições sexuais às crianças e adolescentes, por que a Globo não tenta seguir o modelo russo, por décadas admirado pelos funcionários globais, de proteção às crianças e adolescentes?
Note que não estou recomendando que a Globo siga os muçulmanos da Arábia Saudita. Sugiro apenas o meio termo entre o radicalismo muçulmano e a propaganda americana descarada do homossexualismo.
Gostaria de ver um funcionário da Globo protestando contra o imperialismo cultural pró-homossexualismo do governo dos EUA.
Gostaria também de vê-lo apoiando a lei russa que protege as crianças desse imperialismo.
De acordo com o Estadão, no exterior, o drag queen americano Ru Paul, estrela do reality show Ru Paul’s Drag Race e militante homossexual, comemorou o beijo gay com internautas em português. Entre as postagens no Twitter, ele comentou: “O beijo gay sentido em todo o mundo! Parabéns, Brasil.” Ele só faltou acrescentar, é claro, que o Brasil foi perfeito na imitação do lado mais podre da cultura americana.
A comemoração no Brasil ficou por conta do militante gay mentiroso deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), que comentou: “Estou em prantos! Amor à vida! Que emocionante essa cena!” Ele é o mesmo que ficou em pratos ao inventar a mentira de que um jovem homossexual em São Paulo, depois de se matar após perder o amante, foi assassinado em crime de “homofobia.”
O militante gayzista Toni Reis disse que a cena de beijo gay na Globo foi um marco na luta contra a “homofobia” no Brasil. Ele viu o óbvio: o tal beijo foi pura propaganda.
Como a Globo é apenas uma antena repetidora dos podres do imperialismo cultural, é de se esperar mais imitações podres no futuro.
Entretanto, o lunático ativismo gay não descansará até cenas de beijo gay alcançarem as crianças do Brasil.
O ator Marcelo Serrado, que fez o papel do homossexual Crô na novela “Fina Estampa”, foi vaiado dois anos atrás, porque numa entrevista para a Folha de S. Paulo, ele disse, sobre a exibição de um beijo gay na TV: “Isso é algo que tem que ir quebrando aos poucos. Não quero que minha filha [Catarina, 7] esteja em casa vendo beijo gay às nove da noite [na TV]. Que passe às 23h30.”
Imediatamente, as turbas bárbaras do movimento gay reagiram no Twitter e outras redes sociais, chamando o ator global de “homofóbico”. Tudo porque ele, como pai, não queria que sua filha de apenas 7 anos de idade assistisse a um beijo gay.
Não expor crianças ao beijo gay é “homofobia,” na opinião dos propagandistas do movimento gay. E isso é só o começo, se o Brasil não conseguir fazer como os russos e criar uma lei para proteger as crianças desse tipo de propaganda nociva.
Com informações do Estadão.


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Mais do que um beijo gay

Da Carta Maior – 06/02/2014

A Rede Globo finalmente liberou o beijo gay. A afirmação soa estranha, pois pode sugerir que uma emissora de televisão tenha poder para arbitrar a subjetividade, os afetos, o desejo, o que é circunscrito à esfera do particular, do pessoal. Óbvio que não. Cada um sabe de si. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, escreveu Caetano. Diria mais: muitos sabem das agruras para se enfrentar a sordidez da vida, o preconceito, a intolerância, o olhar censor, o não acolhimento, a chacota, o desprezo, a agressão – seja simbólica, seja na carne golpeada, na pele rasgada, no hematoma contabilizado como violência urbana pelo discurso de recusa à concretude da homofobia. Mas a Globo exibiu dois homens se beijando no dia 31 de janeiro, e isso não é pouca coisa, pois cada um sabe das dores de se constituir e viver nestes tempos em que persiste a intolerância. Portanto, cada vez mais, segue o debate.
Enfim: veio o beijo no epílogo da novela Amor à vida, de Walcyr Carrasco. Na discussão momentaneamente sem fim das redes sociais, alguns tentaram esvaziar a importância do feito, pois se trataria de oportunismo da Globo, de estratégia para conquistar audiência polpuda. A desqualificação sustentava-se ainda no fato de que o gesto provém de emissora cuja programação costuma expor gays estigmatizados, caricatos ou atormentados – ressalvando-se que traços afeminados não devem ser tratados como negativos, pois não existe problema nisso. Havia mais críticas, muitas procedentes, mas arrisco propor que, neste momento, isso tudo não se impõe.
Nos últimos anos, viveu-se no Brasil uma espécie de vigília por um beijo gay em novela de grande audiência. Dois homens e duas mulheres já se beijaram na televisão brasileira, mas sem impacto, por conta da audiência modesta, do pouco destaque dos personagens e do contexto. Perto do final de Amor à vida, estabeleceu-se uma expectativa, quase torcida, nas redes sociais: haveria ou não beijo gay?
Se acontecesse, seria uma derrota pontual da onda fundamentalista que tenta disseminar dogmas morais e religiosos em assuntos que deveriam pertencer ao mundo laico, ao universo do particular. Não se pode esquecer que, em tempos de Felicianos, Malafaias e Bolsonaros, é preciso estar atento para conter o ódio e o preconceito. Assim, dois marmanjões se atracando na TV constituiriam um golpe e tanto contra a sanha dos pastores e do militar travestidos de políticos.
O beijo gay mais comentado em muito tempo apareceu na Globo, mas, se cabe um elogio pelo feito, não é para a emissora, nem para o autor ou os intérpretes. O grande reconhecimento cabe ao movimento LGBT, aos gays e às lésbicas que buscam respeito e dignidade – muitas vezes à custa de sofrimento – e às pessoas que já assimilaram algo estrondosamente óbvio: não faz sentido discriminar alguém por conta da condição sexual.
Esse beijo histórico, retroativamente, construiu-se nos guetos, na clandestinidade, longe do público, em espaços onde o desejo e o afeto eram vividos às escondidas.
Ele resulta também das vozes emanadas das ruas, das manifestações, das alegres e festivas paradas livres. Ele é fruto da coragem de quem ousou ser o que é, mesmo contrariando a barbárie repressora imposta pela sociedade. Não teria capacidade instantânea de erradicar a homofobia, por outro lado, no plano simbólico, é inegável que esse beijo entre iguais instaura um novo patamar no debate pautado pelas temáticas LGBT, e do acúmulo de conquistas e derrotas advém a trajetória de uma causa.
O ranço e o menosprezo com a cultura de massa não devem encobrir o fato irrevogável de que telenovelas – tão desprestigiadas por segmentos mais críticos – incidem na formação do imaginário nacional e pautam muito do que se fala e pensa no cotidiano. Portanto, em um momento de agravamento da violência contra indivíduos cuja sexualidade destoa do padrão heteronormativo, danem-se os pruridos e o preconceito contra telenovelas. Deve ser amplamente comemorado e potencializado o fato de que o folhetim eletrônico permitiu que se avançasse no combate à homofobia. As ruas evidenciam que se vive um acirramento do ódio contra gays – registre-se que, neste texto, não se está falando de outros grupos altamente marginalizados e agredidos, como as travestis, que também têm grande mobilização. No embate pela conscientização, as novelas podem ser aliadas estratégicas.
Se em muitos ambientes e grupos a troca de carinhos entre dois homens ou duas mulheres é vista com naturalidade, não se pode esquecer a existência de pessoas que nunca viram um beijo gay e se surpreenderiam se vissem. Talvez não entendessem. Talvez não tenham condições emocionais e referências culturais para lidar com isso. Desejos represados, interdições morais e religiosas, ignorância – enfim, são muitas as possíveis explicações para a intolerância. Neste contexto, Amor à vida apresentou o beijo entre dois homens como algo comum – o que de fato é –, e algo se rompeu. No ambiente doméstico, a poucos passos do sofá, da poltrona ou da cama, próximo do fogão, seja onde for, dois homens se beijaram.
O empacotamento desse beijo foi bem feito, destoando da edição apressada e das soluções imperfeitas do restante do capítulo final. A linguagem empregada, o plano sequência raro em novelas que antecedeu o clímax, a música do compositor austríaco Gustav Mahler (1860-1911) e as referências ao cineasta italiano Luchino Visconti (1906-1976) – cujo filme Morte em Veneza é caro ao gays – contribuíram para que esse momento da teledramaturgia brasileira se tornasse histórico.
O encontro dos lábios masculinos não se deu com qualquer melodia fácil ou canção da moda. Ao som do Adagietto, quarto movimento da Sinfonia Nº 5 de Mahler, os atores Mateus Solano e Thiago Fragoso consagraram o amor de seus personagens para o grande público. Este trecho, assim como outros da Sinfonia Nº 3 do mesmo compositor, foram usados por Visconti em sua obra que retrata a paixão platônica de Gustav von Aschenbach, compositor no ocaso de sua vida, por Tadzio, efebo belíssimo.
Ainda embebido da referência e ao som de Mahler, o final da novela emulou a derrocada do personagem de Visconti que, sentado à praia, aturdido pela paixão improvável, sucumbe à saúde fragilizada. Félix, o personagem de Solano, acomodou na beira da praia seu pai (Antônio Fagundes), que vestia um chapéu parecido com o de Aschenbach. O beijo, já foi dito, é emblemático, mas o que se processou ao término de Amor à vida talvez seja mais significativo. Pela primeira vez, o pai, que passou toda a trama repelindo Félix, deixando claro sua repulsa, esse mesmo pai, agora com sequelas de um AVC, admite – Adagietto ao fundo – que ama o filho.

Fim.
O que aconteceu naquela noite de sexta-feira não se resume a um beijo. O impacto foi maior do que o provocado por uma passeata gigantesca, por um anúncio de página dupla no jornal de domingo ou por uma propaganda no intervalo do capítulo final da novela. Tratava-se da própria novela, narrativa tipicamente brasileira, detentora de imenso poder de sugestionamento. E, transcorrido pouco tempo, muita coisa já aconteceu. Pastores neopentecostais protestaram e propuseram boicote à Globo, enquanto falam em diabo e degradação moral com uma retórica apocalíptica e esvaziada de lógica.
Na contramão da intolerância e do transe místico-homofóbico, as singularidades das vidas ordinárias sinalizaram que não imperam apenas trevas. O clima de final de campeonato de futebol e os gritos de comemoração que esquentaram ainda mais a noite abrasada do verão, quando Solano e Fragoso se beijaram, expressam acolhida. Um ex-aluno, emocionado, registrou em seu Facebook o recado que recebeu do pai via celular: “Filho, teve o beijo do Félix. O pai te ama”. Outro aluno, não menos comovido, compartilhou na mesma rede social que a mãe comemorou como se fosse uma vitória dela – e é.
Há mais histórias que começaram a aparecer no rastro da novela. No dia seguinte ao capítulo derradeiro, Maju Giorgi, mãe e militante da causa gay, reproduziu em seu blog o relato que recebeu de um menino que não era aceito pela família:
“Estavam todos na sala… eu no sofá quando o Félix beijou o carneirinho… Silêncio…Fiquei quieto também pra não dar motivos, embora estivesse fazendo a drag por dentro… Mas a cena final, do Félix e do César, eu não aguentei, veio um choro descontrolado que estava preso esses quatro anos que não falamos direito, estava total descontrole… daí veio minha mãe com a cara inchada de chorar me abraçar e meu pai do outro lado segurou minha mão e pôs a mão em volta do meu ombro… Não falamos nada! Na hora de dormir, o Felipe (irmão) entrou no quarto, deu a mão e quando eu ia apenas apertar, ele me puxou, deu um abraço e disse que ele sempre vai ser meu irmão. E chorei de novo… Pela primeira vez não dormi no inferno…”.
É importante que se mantenha os fatos em sua configuração original. Nas redes sociais, surgiram comentários pretensamente engajados de que não se tratava de um beijo gay, mas de um beijo de amor. Sim, um beijo de amor, mas protagonizado por dois homens. Apagar o gênero dos personagens é tentativa de sublimar a homossexualidade do casal. Não foi um beijo qualquer, foi um beijo entre dois homens na programação de uma emissora que influencia fortemente o imaginário do país.
Não deixa de ser estranho que, em 2014, se comemore a representação ficcional de um beijo entre pessoas do mesmo sexo. Mais estranho ainda é a dependência que se tem de uma emissora de televisão. Mas assim se processa a construção de um imaginário social pautado em grande medida pela mídia, então, o que se deve esperar é, conforme campanha recente da ONG Somos – Comunicação, Saúde e Sexualidade, “Que, daqui pra frente, qualquer beijo seja simplesmente um beijo”.
Foi um beijo tímido, é verdade. Faltou gana. Não se deve esquecer, no entanto, que, conforme o roteiro, era um beijo trivial, matinal, de despedida entre alguém que fica em casa e outro que vai trabalhar. O autor queria algo prosaico e amoroso. Não se deve esquecer, sobretudo, o mais importante: no último capítulo da telenovela em horário nobre da emissora com maior audiência no Brasil, dois barbados se beijaram, e o pai preconceituoso assumiu seu amor pelo filho gay.

(*) Vitor Necchi é jornalista e professor.

http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Cultura/Mais-do-que-um-beijo-gay/39/30197

Debates – Os rolezinhos e as manifestações populares

Caso de Polícia (Artigo de opinião)

Da Folha – 05/02/2014

Apenas em janeiro deste ano, 30 ônibus das empresas concessionárias, três das permissionárias e mais nove veículos do sistema intermunicipal foram incendiados na região metropolitana de São Paulo.
Nenhum desses incêndios teve como motivação o valor da tarifa ou a qualidade do serviço. Pela irresponsabilidade e inconsequência, bem como pelos resultados graves do ato praticado, o incendiário deve ser recolhido e encaminhado para tratamento mental ou preso e condenado por periclitação à vida, tentativa de homicídio e dilapidação do patrimônio alheio, entre outros crimes previstos no Código Penal.
Quer nos parecer que o incendiário está muito mais para criminoso do que para doente mental.
O mais preocupante é que colocar fogo em ônibus se tornou um recurso empregado para conferir visibilidade ao indivíduo que pratica o ato de selvageria e banditismo. Em quase todos os incêndios provocados, o ônibus encontrava-se em plena operação, com tripulação e passageiros a bordo. Em alguns casos, os incendiários nem sequer deram tempo aos usuários para que descessem do veículo e se protegessem.
Parece que, de uma hora para outra, a população teria se dado conta de que manifestações, lutas, lemas e bandeiras não sensibilizariam mais os formadores de opinião se não aparecessem nos telejornais e nas primeiras páginas dos jornais. Quando noticia tais incidentes, a imprensa legitima a atuação dessas falsas lideranças.
Ao longo dos últimos cinco anos, cresceu o número de veículos incendiados e o prejuízo das empresas concessionárias do serviço de transporte por ônibus em São Paulo: de 16 veículos incendiados e um prejuízo de R$ 8 milhões em 2009, passou para 53 ônibus incendiados e prejuízo superior a R$ 26 milhões em 2013. No total, as empresas operadoras tiveram perda de 189 ônibus e R$ 94 milhões. Os veículos incendiados, quase todos com meia vida útil, foram substituídos por novos, aumentando o custo de produção dos serviços.
Os motoristas e cobradores que atuam nas regiões onde os ônibus são mais frequentemente incendiados começam a dar sinais de que não querem mais trabalhar em determinados horários ou quando há indício de manifestação. O receio de colocar suas próprias vidas em risco tem criado um ambiente de apreensão e de medo. No final do ano passado, um motorista que decidiu ajudar uma cadeirante a sair de um ônibus em chamas teve o braço queimado e ficou com sequelas para o resto da vida.
Mas, o prejuízo maior é a falta de transporte público para a população que depende dele. A retirada de um ou mais ônibus incendiados da operação de uma determinada linha pode provocar uma significativa redução do número de paradas e redução impactante da frota.
Por todas essas razões, a questão já ganhou uma dimensão que exige urgentes providências das autoridades constituídas, em especial daquelas ligadas à área da segurança pública. A demora em capturar e responsabilizar os incendiários tem contribuído para o crescimento vertiginoso desse crime. Atear fogo em ônibus é caso de polícia.

FRANCISCO CHRISTOVAM, 61, é presidente do SP-Urbanuss (Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo). Presidiu a SPTrans (empresa que gere o sistema de transporte coletivo da cidade) de 1993 a 1999


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Rolezinhos na sociedade do espetáculo (Artigo de opinião)

Do Estadão – 06/02/2014

A ocorrência dos rolezinhos despertou minha curiosidade pelo assunto, principalmente em razão de palestra a que assisti no Brasil há alguns anos, ministrada por Gilles Lipovetsky, um filósofo francês que analisa a realidade sócio-histórica e, dentro dela, fenômenos como o consumo, a moda e o luxo. São temas também da seara de economistas, como eu, e pelo que li nos jornais os rolezeiros são muito focados na moda e no consumo, o que para eles constitui um luxo.
Para Lipotvesky, cada um tem a sua ideia do que seja luxo, muitas vezes compartilhada pela sua comunidade. Na palestra, ao falar do luxo nessa perspectiva, que não depende necessariamente da renda, ele disse que para brasileiros isso não deveria ser novidade. E mencionou os nossos índios, que se enfeitam luxuosamente para suas celebrações, e também todo o luxo ostentado pelas escolas de samba.
Na realidade sócio-histórica atual, Lipovetsky identificou o que chamou de hipermodernismo, objeto de seu livro Os Tempos Hipermodernos, de 2004. Pondero não ser possível fazer justiça ao seu abrangente significado recorrendo a uma frase ou outra, mas não tenho alternativa. Num trecho em que explica o conceito, afirma que (...) "no cerne do novo arranjo do regime do tempo social, temos: (1) a passagem do capitalismo de produção para uma economia de consumo e de comunicação de massa; e (2) a substituição de uma sociedade rigorístico-disciplinar por uma 'sociedade-moda' completamente reestruturada pelas técnicas do efêmero, da renovação e da sedução permanentes".
"Nasce toda uma cultura hedonista e psicologista que incita à satisfação imediata das necessidades, estimula a urgência dos prazeres, enaltece o florescimento pessoal, coloca no pedestal o paraíso do bem-estar, do conforto e do lazer. Consumir sem esperar; (...) divertir-se; não renunciar a nada (...)."
São termos sofisticados, mas que colocam os rolezinhos como fenômeno hipermoderno, apoiado também no forte avanço das tecnologias de informação e comunicação. É só traduzir esse "filosofês": os rolezeiros apreciam o consumo e andam na moda, valorizam a cultura do prazer, até mesmo na urgência de beijar as "minas" que também se dispõem a fazê-lo, querem ser admirados por suas aparências e seus feitos, e por aí afora. Para o florescimento pessoal fotos nas reportagens e nas capas de revistas são a glória.
Encontrei outra obra pertinente ao assunto, datada de 1967, que permanece atual. Intitulada A Sociedade do Espetáculo, foi escrita Guy Debord, outro filósofo francês, um marxista crítico da velha guarda do ramo. Cada parágrafo exige reflexão do leitor. Teve várias traduções do francês e uma em inglês, que consultei, criticou outras na sua introdução.
Dada a complexidade do texto, recorri a uma resenha dele feita pelo jornalista John Harris, do jornal britânico The Guardian, de 30/6/2012. Harris também adverte ser temerário descrever o livro por poucas frases, mas selecionou algumas, e eu ainda escolhi estas entre elas: "Em sociedades onde predominam as modernas condições de produção, toda a vida se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se transformou numa representação". Depois de refundir a ideia de ser na de ter, "(...) a atual fase de total ocupação da vida social pelos resultados acumulados da economia (...)" produziu um "(...) generalizado deslize do ter para o aparecer, do qual todo o efetivo ter deve extrair seu imediato prestígio e sua função final".
Nesse contexto, imagem e realidade se confundem, muitas vezes com predomínio da primeira, de mais fácil difusão e percepção. E frequentemente de forma oportunista, como no caso da propaganda de bens e serviços, ou mesmo de políticos.
Mas onde está o marxismo de Debord? Está no fato de que procura entender como evolui e se adapta o capitalismo, contrariando companheiros que, assentados em clichês antigos, ficam a esperar por uma crise definitiva desse sistema. Que nunca chega, como o esperado personagem Godot da conhecida peça teatral. Uma razão é que o consumo exacerbado pelo espetáculo impulsiona a economia e acaba sendo uma forma de alienação do proletariado de sua efetiva condição social, um tema recorrente da análise marxista.
Em retrospecto, embora de diferentes vertentes, as análises de Lipovetsky e Debord se integram, pois ambos enfatizam o consumo exacerbado. E a moda e o luxo do primeiro autor levam a espetáculos pessoais na visão do segundo. Como conceito, entretanto, a sociedade do espetáculo firmou-se mais do que a hipermodernidade. Além de mais recente, este último adotou como nome uma perspectiva temporal, enquanto o título de sociedade do espetáculo enfatiza a natureza do que se passa. Evidência disso é que Mário Vargas Llosa, num livro publicado em 2013, optou por chamá-lo de a civilização do espetáculo, ainda que se referindo aos dois autores.
Pensando em como lidar com os rolezinhos, pouco tenho a dizer. Talvez caiam de moda ou de conveniência para seus praticantes, inclusive pelo fim das férias escolares. De qualquer forma, o diálogo entre as partes envolvidas é indispensável. Ele vem ocorrendo, mas do lado dos shoppings vejo-o limitado a seus donos ou executivos. Falta a representação dos comerciários que trabalham nos shoppings recebendo parte de seus ganhos na forma de comissões sobre vendas e, assim, ficando no prejuízo com os rolezinhos ou com a simples ameaça deles.
E se houve quem, precipitadamente, tenha visto no fenômeno um sintoma de crise do capitalismo, com gente do proletariado se arregimentando para enfrentá-lo, vale lembrar uma contradição interna a essa classe e frequentemente ignorada por marxanalistas. Essa dos interesses divergentes de rolezeiros e comerciários, entre muitas outras.

*Roberto Macedo é economista (UFMG, USP e HARVARD) e consultor econômico e de ensino superior.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,rolezinhos-na-sociedade-do-espetaculo,1127237,0.htm

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Quem mexeu na minha praça de alimentação? (Artigo de opinião)

Da Carta Capital – 16/01/2014

Especialistas trarão mil e uma teorias sobre o fenômeno surgido como novidade no início do ano (as chacinas na periferia da maior cidade do interior paulista ou nos presídios do Nordeste não são fenômenos novos: são déjà vu, ocorrem dia sim, dia não, e, exceto pelas imagens da barbárie, não chocam nem comovem o grosso da opinião púbica).
O rolezinho da periferia, por sua vez, não só choca como divide: o presídio e o beco estão longe, mas a praça de alimentação é quase um quintal vilipendiado.  Assim, o fenômeno chama a atenção menos pelo que significa e mais pelo que provoca: de um lado, aplausos de quem vê na mobilização um novo verniz para a luta de classes; de outro, os relinchos dos apavorados de plantão que agora se veem invadidos e a perigo (não bastasse o alargamento das portas nas rodoviárias e aeroportos).
Há, até aqui, muita confusão sobre o evento. Como alertou tempos atrás o meu amigo Leandro Beguoci, há uma periferia dentro do centro e um centro dentro da periferia; logo, o centro que frequenta o shopping na Zona Leste não é o mesmo que circula no shopping da Faria Lima. Da mesma forma, não está em xeque o conceito de espaço público, mas de alargamento de espaço privado: as portas de sensor automático dão a impressão de que o monstro encravado na cidade onde antes havia um lago ou uma praça é aberto a todos, mas a segurança particular nos lembra que “todos” não são “qualquer um”. Esse é o ponto que liga o presente ao passado. Um estrangeiro que desembarcasse hoje ou há 50 anos a um shopping da capital paulista mal perceberia que estava no Brasil, um país de maioria negra e parda que há séculos mantém espaços cativos nos colégios e universidades de ponta, cafés, centros culturais e as redações - sim, sem exceção. A população com cara de população, quando entra nesses espaços, é para trabalhar ou servir.
Em um shopping center, não se paga pelo produto. Paga-se pela experiência. Pela sensação de ter acesso a uma ordem distinta dos atropelos das ruas ao estilo 25 de Março. A sensação de não passar calor. De estar protegido. De não ser qualquer um. (Para preservar a ideia, ou o fetiche, é necessário desdenhar os barracos na hora de estacionar ou de pegar fila no caixa do shopping).
A história parece nova, mas não é. Mudam-se os nomes e os rótulos, mas não o cinismo, como lembrou a amiga Rosanne D'Agostino, do portal G1, em sua página no Facebook: “Esse 'rolezinho' na minha infância se chamava 'molecada maconheira na esquina da casa da vó'. Na adolescência eram os 'skatistas coçando o saco' ou os 'surfistas metidos a usar Quilhas e Okley'. Na verdade são todos os mesmos caras que só queriam um espaço pra curtir”. Desses tempos, o que surgiu além de bares e igrejas? Praças, clubes, quadras, parques? Não, lembrou ela: “Permitiram centenas de condomínios fechados, prédios comerciais e shoppings” Mas isso era outro mundo – ou, outro muro, erguido para proteger o mundo de seus olhares e intenções. Alguns se revoltaram. Aprenderam a se expressar. Criaram letras para rap. Para funk. Mas até isso lhes foi tirado: em São Paulo baile funk agora é crime e há uma ordem implícita de que a reunião de dois ou mais adolescentes em determinados lugares dá a eles a pecha de “elementos suspeitos”; a partir daí, tudo é permitido, e nada aliviado. Em uma cidade como São Paulo, a depender de onde se nasce, esta é a única concessão autorizada: nascer. A outra é morrer.
Sem espaços de lazer ou expressão, a migração para uma área de convívio, privada mas de portas aparentemente abertas, chega a ser natural, e essa transposição transformou um recado velado em um grito primitivo: “este não é o seu lugar”. O recado é agora expresso por seguranças privados, autoridades públicas, pela polícia, pelos ofendidos em redes sociais e pelos juízes. Não poderiam ser mais claros.
Na sexta faixa do álbum “Era uma vez um homem e seu tempo”, de 1979, Antonio Carlos Belchior colocou um grande espelho diante de um país dividido não simplesmente entre opressores e oprimidos, mas entre quem “conhece” e quem “não conhece” o seu lugar. Aos que conhecem, afagos e ossos. Aos que não conhecem, os pontapés. É desse país que ele falava em “Conheço o meu lugar”, e é este o país escancarado pelo recalque de quem hoje cita a ordem e a baderna para ter de volta uma praça de alimentação para chamar de sua. Ao ver as imagem dos golpes contra os jovens (de dez? Doze? Quatorze anos?) que não entenderam o alerta e as proibições invisíveis de um país intocado, fica impossível não se lembrar dos versos de quem um dia berrou (e depois calou, de tristeza ou por calar) contra tudo isso: “Ninguém é gente!  Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!  Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos! Não sou da nação dos condenados! Não sou do sertão dos ofendidos! Você sabe bem: Conheço o meu lugar...”


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Imprensa se surpreende com rolezinho porque ignora periferia, diz ex-Folha (Notícia)

Do Portal Comunique-se – 31/01/2014

Em painel realizado na sétima edição da Campus Party, evento que acontece nesta semana em São Paulo, a ex-repórter da Folha de S. Paulo, Laura Capriglione, falou sobre a cobertura da mídia para pautas com assuntos "manifestações", "rolezinhos" e "bailes funks". De acordo com ela, os "veículos off-line" ficaram surpresos porque restringem a cobertura "a um quadrado de 4,6 km" da cidade.
Segundo informações da Folha, Laura afirmou que esse é um dos pontos que explica o motivo de o jornalismo tradicional estar em crise. "Há cada vez menos histórias de pessoas nos jornais, (...) Eles (os jornais) agora são preenchidos por material de assessorias de imprensa e colunas de opinião".
No debate, que tinha como tema "Reportagem no divã, reflexões do mundo off-line", estavam presentes os jornalistas André Caramante e Alberto Dines. Também profissional da Folha, Caramante comentou sobre as novas tecnologias e a influência na comunicação. "Hoje todo mundo tem um iPhone e um iPad, mas não vejo isso com bons olhos. Com isso, se esqueceu que lugar de jornalista é na rua, não na redação".
Dines discordou com a informação de que o jornalismo está em crise, mas ressaltou que o mundo digital trouxe alterações no modo de pensar das pessoas. "A confiança ilimitada no mundo digital nos tira a capacidade analógica de pensar, de refletir".