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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Alemanha cria 'terceiro gênero' para registro de recém-nascidos

Da BBC – 20/08/2013

A partir de 1º de novembro, a Alemanha oferecerá aos pais três opções para registrar seus filhos: "masculino", "feminino" e "indefinido". A nova lei foi aprovada em maio, mas seu teor só foi divulgado em agosto deste ano. Com isso, a Alemanha passa a ser o primeiro país europeu a oficializar o terceiro gênero.
Essa mudança é uma opção para pais de bebês hermafroditas, que nascem fisicamente com ambos os sexos.
A nova legislação abre a possibilidade de a criança, ao se tornar adulta, escolher posteriormente se prefere ser definida como homem ou mulher. Ou mesmo seguir com o sexo indefinido pelo resto da vida.

Questões indefinidas
Na Alemanha, alguns jornais disseram que a mudança é uma "revolução legal". No entanto, a lei não prevê como a escolha do sexo indefinido é refletida em documentos como o passaporte, onde existe apenas escolha entre "M" e "F". A revista alemã de direito familiar FamRZ sugere que a opção de sexo indefinido seja marcada com a letra "X".
A nova lei é amparada em uma decisão do tribunal constitucional alemão que estabeleceu que pessoas que se sentem profundamente identificadas com um determinado gênero têm o direito de escolher seu sexo legalmente.
Outro assunto ainda a ser definido é matrimônio. A lei alemã só permite atualmente casamentos entre homens e mulheres, o que não contempla pessoas de gêneros indefinidos.
Poucos países no mundo possuem legislações sobre terceiro sexo. A Austrália aprovou uma lei há seis semanas, mas desde 2011 os australianos já têm o direito de identificar-se com o sexo "X" no passaporte. Na Nova Zelândia, isso é possível desde 2012.
O correspondente da BBC na Alemanha, Demian McGuiness, afirma que ainda há outros pontos em aberto. No caso de uma pessoa de sexo indefinido ser presa, em qual presídio ela seria detida?
O grupo de direitos de pessoas transgêneros Trangender Europe vê avanços na legislação alemã, mas reivindica mais mudanças.
"É [uma mudança] lógica, mas não é uma lei tão progressista como gostaríamos que fosse", disse Richad Köhler, do Transgender Europe. Ele diz que a lei só contempla bebês que tiveram diagnóstico médico de hermafroditismo.
A entidade quer que as pessoas possam ter o direito de deixar a opção de gênero em branco, sem precisar se quer se declarar "indefinido".


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Co-voiturage: serviço de transporte alternativo ganha cada vez mais adeptos na França

Do Opera Mundi – 06/08/2013

Charlotte Richard, de 25 anos, espera na frente da parada Sabines, em Montpellier, a carona que a levará a Toulouse. O atraso já dura 15 minutos quando, pontualmente às 10h30, um dos coloridos bondes da cidade cruza a estação. Ela então resolve ligar para Pierre, com quem combinou o trajeto de 250 quilômetros na noite anterior. Mas, depois de duas tentativas sem sucesso, a jovem cidadã francesa agita o celular. “Isso nunca aconteceu antes. É constrangedor”, desabafa. O rapaz só atende na terceira vez, pede desculpas e diz que o ponto de encontro mudou.
No estacionamento de um Carrefour a cinco minutos dali, Pierre e o outro passageiro, Aurelian, aguardam Charlotte na frente de um C-3 branco com o porta-malas aberto. Ela chega e os cumprimenta - salut, bonjour e ça va! -, ajeita o mochilão no bagageiro e entra no banco de trás, ansiosa para voltar à sua casa após passar seis meses em viagem. Sem delongas, o carro dá partida e sai à rodovia em direção ao sudoeste, deixando à mostra no vidro traseiro um adesivo que indica: “je co-voiture”.


Raphael Fillon e sua namorada, Sophie, são co-voiturers habitués. Serviço de carona combinada pela internet cresceu na França

Até 2006, não existia uma tradução em francês para “carona’ - o que mais se aproximava do termo era o faire du stop, que consiste em esticar o braço na estrada até alguém parar. Mas, desde então, foram dez milhões (uma média de quatro mil por dia) as caronas combinadas pela internet sob o título de co-voiturage. Já se faz uso corrente da expressão, derivada da palavra voiture (carro em francês), de Marseille a Paris. O sistema coletivo se organiza por meio de redes sociais onde condutores e passageiros interessados em dividir trajetos podem anunciar ou buscar seus destinos.
O primeiro site de co-voiturage da França foi criado há sete anos pelo especialista em informática Frédéric Mazzella, que então fundava sua start up, o BlaBlaCar. A iniciativa conseguiu reunir dois milhões de usuários no período, e eles realizam, atualmente, 600 mil caronas por mês. Alguém que estiver em Montpellier encontra propostas quase diárias para ir a Toulouse a um custo médio de 15 euros - a mesma viagem custaria pelo menos o dobro se fosse feita de trem.

Condutor habitual
O vendedor de seguros Raphael Fillon, de 32 anos, deu algo entre 70 e 80 caronas nos últimos dois anos. Ele ganhou, assim, o título de “embaixador” do co-voiturage - isto é, o BlaBlaCar lhe coloca no topo das pesquisas. Sua primeira carona foi dada em 2011 quando ele precisou percorrer 1.100 km entre a pacata ville de Pau, na borda dos Pirineus, e o Monte Saint Michel, no norte da França. “Eu não queria pegar avião ou trem, mas também não podia encarar um percurso desses sozinho, então publiquei um anúncio. Muitas pessoas se interessaram, e a viagem foi super bem passada”, ele recorda.
Raphael anuncia quase semanalmente trajetos curtos para o sábado e domingo, quando costuma viajar com a namorada, Sophie, a estações turísticas no sudoeste da França.
No último sábado de julho, o casal decidiu visitar a região de Les Landes, abastada de florestas e campings, na beira do Oceano Atlântico. O anúncio dizia: “Vamos a la playa!”. Logo abaixo, no perfil do condutor, antigos caronas o elogiavam: “muito agradável, simpático, aberto ao diálogo etc.”
Dirigindo seu Peugeot 406 cinza-claro a 90km/h numa estrada vicinal que passa pela cidade de Léon, Raphael devolve os elogios: “Nunca mantive contato com ninguém do co-voiturage, mas tem certas pessoas que são claramente geniais.”
Sobre o tipo de gente que procura as caronas, o motorista observa uma exceção. “Eu já dei carona para todos os tipos, informáticos, gerentes e alternativos. No entanto, não há muitos funcionários públicos. Eu nunca dei carona para um servidor”, ele afirma.

Diálogos e compromisso
O aspecto mais interessante do co-voiturage, depois da economia, é a abertura ao diálogo (o blábláblá), concordam os condutores entrevistados pela reportagem. “Você encontra todo tipo de gente”, afirma a bióloga Sandra F., de Dax, que descobria a nacionalidade de seu passageiro, um brasileiro, quando João Gilberto já tentava todas as notas, ré mi fa sol lá si do, nos auto-falantes do carro. “Estou muito interessada pela Bossa Nova, mas gostaria de conhecer as músicas mais dinâmicas”, ela diz, durante um percurso de 100 quilômetros pelo qual havia pedido cinco euros, pagos na hora.
O sistema de caronas abriu uma nova porta para encontros e conversas num país em que a solidão é frequentemente comentada. “Os franceses são nacionalistas, regionalistas e umbiguistas”, endossa Raphael, o “embaixador” do BlaBlaCar. Para evitar desencontros e sustentar uma equipe de 85 funcionários, o site começou a cobrar uma taxa pelo agendamento das caronas. O motorista tem a opção de receber o dinheiro do trajeto durante o percurso (livre da taxa) ou pela internet, por meio de um serviço financeiro online. “As desistências caíram de 35% para 4%. Em se pagando com antecedência, os passageiros se comprometem a aparecer”, explica Alice Chasseriaud, porta-voz da rede social.
Como há poucos furos e os franceses são normalmente pontuais, Charlotte Richard ficou preocupada e considerou constrangedor quando sua carona para Toulouse, no início de junho, atrasou 15 minutos...
Às 11h de uma manhã cinza em Montpellier, na estrada à caminho da quarta maior metrópole francesa, Pierre puxa assunto com os passageiros. “É verdade que em São Paulo há helicópteros que estacionam em cima dos prédios?” O jovem conta que organiza festivais de rua e, nesse momento, busca músicos do Caribe para um espetáculo toulousiano no ano que vem. Ao seu lado, Aurelian diz que estuda para ser educador de crianças com necessidades especiais, como filhos de refugiados e ciganos. Em questão de minutos, Charlotte, que só quer chegar em casa, está descobrindo que “as terapias para cachorros são feitas há muito tempo nos países nórdicos. Eles estão uns 20 anos à frente da França”.

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/30440/carona+a+francesa+servico+de+transporte+alternativo+ganha+cada+vez+mais+adeptos+.shtml

terça-feira, 6 de agosto de 2013

“Caso Snowden está mudando o mundo digital”, afirma Isabelle Falque-Pierrotin

Da Carta Maior – 31/07/2013

Paris – A história de Edward Snowden marca uma fronteira definitiva entre as ilusões e a confiança na tecnologia e a crua realidade de nosso comportamento inocente: ninguém mais poderá dizer que “não sabia”. Agora sabemos todos, não só que estamos sendo constantemente espionados, mas sim e, sobretudo, que essa espionagem é realizada com a cumplicidade dos operadores privados em quem havíamos depositado nossa confiança: Google, Skype, Microsoft, Apple e seus demais aliados na empresa planetária da vigilância e da violação da intimidade. A era digital, do seu modo, era a idade da inocência: éramos perfeitamente capazes de fechar as portas com chave, de fechar as janelas, de colocar grades na varanda ou na janela, de ficar atentos ao andar em bairros perigosos em certas horas da noite. Mas, ao mesmo tempo em que existia essa consciência do perigo do meio ambiente físico, deixamos entrar em casa um espião, um espoliador de dados, um bandido teleguiado desde os escritórios de inteligência do grande império.
Na América do Sul conhecemos bem os resultados dessa prática: o Plano Condor montado pelas ditaduras de Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai funcionou com base em um sistema de comunicações, de armazenamento e tratamento de dados chamado Condortel e cujo eixo foram computadores da IBM que processavam as informações sobre os suspeitos. Hoje, o programa espião Prisma permite elaborar um “perfil” planetário de suspeitos. Um exemplo basta para compreender um dos numerosos alcances dessa produção de perfis em massa: se alguém viaja pela primeira vez para os Estados Unidos em classe executiva ou primeira classe pode ser tratado com atenção especial pelos serviços de segurança. Como os assentos da classe executiva e da primeira classe estão perto da cabine dos pilotos, os passageiros sem histórico nesse tipo de viagem serão, sem dúvida alguma, vigiados com atenção.
Para além da curiosa trama do caso, Edward Snowden nos levou a mudar de mundo, a modificar nossos hábitos e a exigir dos poderes públicos uma intervenção mais decisiva. É exatamente isso o que pensa Isabelle Falque-Pierrotin, a presidenta da Comissão Nacional de Informática e Liberdades (CNIL). Este organismo do Estado francês é encarregado de cuidar da proteção dos dados pessoais, Criada em 1978, a Comissão nacional de informática e Liberdades tem hoje uma missão mais essencial do que nunca: a construção de uma ética digital, a capacitação para fazer frente aos desafios e excessos dos operadores e dos Estados e, acima de tudo, a proteção da privacidade dos indivíduos.

O caso Snowden tem muitas leituras, desde a policial até a informática. Para você, o que significam as revelações que ele fez ao mundo?
O caso Snowden quer dizer que entramos em uma nova era, quer dizer que a era digital é uma era na qual há dados pessoais por todas as partes, por todos os usos. Quer dizer também que, a partir disso, devemos permanecer atentos a nossa vida individual. Não podemos nos apoiar unicamente nos demais, devemos nos responsabilizar com nosso comportamento e com nossa utilização da internet. Não se trata de montar uma censura individual, isso seria contra- produtivo. Hoje estamos todos concernidos pelo mesmo problema. A partir da agora é preciso adaptar os comportamentos. O caso Snowden mostra igualmente que a transparência entrou em uma nova fase e que, talvez, seja necessário aportar respostas mais institucionais que a resposta de Snowden. Devemos construir controles democráticos, tanto dos poderes públicos como das empresas, que são extremamente poderosas.
Tivemos um grande choque com o que ocorreu com Snowden. O que esse caso mostra é que existe uma aliança objetiva entre os grandes grupos da internet e os poderes públicos estrangeiros para colocar os indivíduos sob vigilância. De fato, a vigilância dos poderes públicos existe há muito tempo. Mas essa vigilância era feita, digamos, em relação a pessoas más. Agora, em troca, estamos potencialmente em um sistema onde somos potencialmente vigiados em nosso uso cotidiano e banal da internet. Isso dá medo aos indivíduos, ao mesmo tempo em que acentua a necessidade de construir garantias jurídicas importantes e reais frente aos grandes grupos.

O que se pode exigir concretamente de gigantes como Google, Facebook, Microsoft, Skype e outros?
É preciso exigir que abram suas caixas-pretas e digam o que fazem com nossos dados pessoais, como os utilizam e a quem permitem o acesso dos mesmos. O período atual é decisivo porque a Europa está elaborando seu novo marco jurídico e é evidente que o caso Snowden nos obriga a cerrar fileiras e a avançar em grupo para dizer aos atores internacionais e aos Estados estrangeiros: “aqui vocês devem atuar desta forma”.

E que estratégia deve se adotar frente ao grande público. Já sabemos que a questão da espionagem não é uma fantasia, ou uma paranoia dos adeptos das teorias da conspiração, mas sim uma realidade universal.
Não creio que manejar esse tema mediante o medo seja algo bom. O caso Snowden reforça a inquietude dos cidadãos e a vontade de transparência. Nós queremos fazer circular a ideia de que o universo digital é extraordinário porque todas essas ferramentas nos oferecem uma potencialidade de ação considerável. O problema está em que, no fundo, não compreendemos bem essas ferramentas. Por isso esse caso nos incita a desenvolver a educação digital. Isso é o que estamos fazendo agora na França: lançamos a educação digital como uma causa nacional. Essa é, creio, a resposta positiva ao caso Snowden. Mais amplamente, creio que na França e na Europa não se tomou plena consciência da magnitude do fenômeno digital. Snowden é, a sua maneira, o ponto culminante de uma evolução que se constata há um ano.
O mundo digital entrou na vida das pessoas com suas preocupações, a vigilância, por exemplo, mas também pelos aspectos positivos de sua utilização. Há, ao mesmo tempo, muito apetite por esses instrumentos e, também, um medo latente que só espera a circunstância certa para se cristalizar em um ou outro ponto. Hoje é Snowden, amanhã será outra coisa. A resposta deve ser a pedagogia e a responsabilização dos atores econômicos pedindo-lhes oficialmente garantias de parâmetros obrigatórios, transparência e a permissão para que os clientes escolham realmente, o que não é o caso hoje.

Como funciona a Comissão e quais são suas atribuições?
A CNIL é uma autoridade administrativa independente cujo trabalho consiste em proteger os dados pessoais dos indivíduos, ou seja, todos os dados que circulam no mundo digital e que dizem respeito à vida das pessoas. O trabalho da CNIL consiste também de uma tarefa pedagógica, que é acompanhar o uso dos instrumentos, controlar as empresas e os responsáveis públicos para proteger os dados pessoais dos indivíduos. Trata-se, em resumo, de garantir a vida privada e as liberdades digitais neste universo. É uma tarefa ambiciosa. A Comissão é um instrumento muito potente: temos um orçamento substancial e há 148 pessoais trabalhando aqui. Nosso trabalho permite às empresas a construção de um modelo econômico mais legítimo.
Quanto aos atores públicos, nós fixamos limites e marcas para eles. No universo atual isso é muito útil. Somos uma instância que é consultada sobre os textos de lei e os decretos cada vez que o tema da proteção dos dados pessoais está em jogo. Temos também outros poderes como, por exemplo, a aprovação da utilização da biometria. Temos igualmente um poder de controle e sanção sobre tudo que possa violar a proteção dos dados pessoais.
Contamos com todo o arsenal necessário para um regulador. Se o responsável pelo tratamento de dados não está em conformidade com nossa lei podemos aplicar sanções. Atualmente estamos nesse processo de sanção com Google. A empresa tem três meses para cumprir o que exigimos. Se não o fizer, temos a possibilidade de discutir sanções financeiras.


http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22441&utm_source=emailmanager&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim_Carta_Maior__31072013

Rússia concede asilo a Snowden e tensão aumenta com os EUA

Do Terra – 01/08/2013

O ex-consultor dos serviços de inteligência dos Estados Unidos Edward Snowden obteve na quinta-feira, dia 01 de agosto, asilo temporário de um ano na Rússia e deixou o aeroporto de Moscou onde estava confinado há mais de um mês, em uma decisão muito criticada pelos Estados Unidos.
"Durante as oito últimas semanas vimos a administração Obama não demonstrar respeito algum pelas leis internacionais e nacionais, mas, no final das contas, a justiça ganhou. Agradeço à Rússia por ter me concedido o asilo, de acordo com suas leis e suas obrigações internacionais", disse Snowden em suas primeiras declarações públicas divulgadas pelo site WikiLeaks.
Na manhã do dia 1º, seu advogado Anatoli Kutcherena surpreendeu ao anunciar que Snowden havia deixado o aeroporto de Sheremetievo.
"Acabamos de entregar a ele um documento que prova que recebeu asilo temporário de um ano na Rússia", declarou o advogado, acrescentando que o fugitivo americano "foi para um lugar seguro".
Os Estados Unidos reagiram ao anúncio logo na tarde.
"Estamos extremamente decepcionados pelo fato de o governo russo ter tomado esta decisão, apesar dos pedidos claros e legais, em público e em particular, de ver Snowden expulso para os Estados Unidos, para que ele respondesse às acusações que pesam contra ele", afirmou o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney.
"À luz destes fatos, estamos avaliando os planos de uma cúpula" bilateral prevista para acontecer no início de setembro, antes da reunião do G20, acrescentou.
Segundo o site WikiLeaks, fundado pelo australiano Julian Assange e que tem desempenhado um papel ativo na fuga do jovem americano, Snowden deixou o aeroporto "sob a tutela" de Sarah Harrison, que o tem acompanhado desde sua chegada a Moscou Sheremetievo.
"Eles deixaram "o aeroporto de táxi" para um local "seguro e confidencial", indicou.
"O local onde ele está não será divulgado por questões de segurança, porque ele é o homem mais procurado do mundo", acrescentou o advogado de Snowden.
Contudo, Kutcherena afirmou que Snowden deve se dar declarações públicas cedo ou tarde.
"Ele deverá passar por um período de readaptação. Ele passou muito tempo na zona de trânsito (...) Mas é claro que vai reaparecer. Acreditem em mim, ele sabe que a imprensa está interessada", declarou à televisão russa.
O nome "Snowden Edward Joseph" figura no documento apresentado pelo advogado ao lado de uma foto em preto e branco do fugitivo americano.
Ele foi expedido dia 31 de julho e é válido até 31 de julho de 2014, segundo as imagens.
O funcionário da CIA e ex-consultor de inteligência, de 30 anos de idade, estava bloqueado desde 23 de junho na zona de trânsito do aeroporto de Moscou Sheremetievo e solicitou asilo provisório ao governo russo.
Edward Snowden é exigido pela justiça americana, que o acusa de espionagem por ter revelado a existência de um sistema americano de vigilância mundial das comunicações telefônicas e por internet.
Apesar dos vários pedidos de extradição dos Estados Unidos, a Rússia se negou a entregar Snowden. O caso tem estremecido as relações entre os dois países.
O presidente russo, Vladimir Putin, chegou a impor como condição para a permanência de Snowden em território russo o fim das atividades que prejudicam seu "parceiro" americano.
Por fim, o fugitivo aceitou essas condições, segundo personalidades russas que o encontraram em 12 de julho no aeroporto.
Reagindo ao anúncio de asilo, o pai de Edward Snowden agradeceu à Rússia em uma entrevista concedida à rede de televisão pública russa Rossia 24.
"Para meu filho, acabou de vez", declarou, referindo-se às atividades de seu filho.
Snowden apresentou em 16 de julho um pedido de asilo temporário à Rússia, depois de um longo período de hesitação, durante o qual recebeu o convite de países latino-americanos.
Ainda nesta quinta, o fundador do similar russo do Facebook, o Vkontakte, a maior rede social do país, se dispôs a empregar o fugitivo americano.
"Convidamos Edward Snowden para São Petersburgo (noroeste) e ficaríamos contentes se ele decidisse juntar-se a nossa equipe", escreveu Pavel Durov em seu site.

http://noticias.terra.com.br/mundo/europa/russia-concede-asilo-a-snowden-e-tensao-aumenta-com-os-eua,af015bd106430410VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html

terça-feira, 4 de junho de 2013

Governo turco reconhece legitimidade de protestos mas condena violência

Da EFE – 04/06/2013

O vice-primeiro-ministro da Turquia, Bulent Arinç, disse na terça-feira, dia 04, que os protestos contra a demolição de um parque em Istambul são "legítimos e justos", mas condenou o uso da violência.
Em entrevista coletiva concedida em Ancara após uma reunião com o presidente turco, Abdullah Gul, o número dois do governo islamita moderado reconheceu que "a violência exagerada da polícia no começo dos incidentes no parque provocou uma reação".
"Estamos abertos a todas as reações mas não deve haver violência. A reação do povo no parque foi legítima e justa, mas esta reação legítima foi utilizada com abuso por grupos marginais ilegais", afirmou o vice-primeiro-ministro turco.
Os violentos protestos que vem ocorrendo na Turquia desde sexta-feira, dia 31 de maio, já deixaram duas pessoas mortas. Além disso, centenas ficaram feridas e foram detidas temporariamente durante os enfrentamentos com as forças da ordem.
A violência começou quando a polícia tentou retirar à força milhares de manifestantes do parque Gezi, em Istambul, onde as autoridades planejam construir um centro comercial.

"Peço desculpas para aqueles (manifestantes) com sensibilidade ambiental pela violência policial usada no começo. Mas não temos desculpas para os violentos", disse Arinç.
Por outro lado, o vice-primeiro-ministro, que atua também como porta-voz do governo, acusou a imprensa estrangeira de comparar "intencionalmente" o sucedido com a Primavera Árabe.
"Por que não o comparam com a ocupação de Wall Street? Como se comportou a polícia ali? Estas coisas se passaram na Espanha, Grécia, Reino Unido e Itália, onde a polícia atuou de forma similar", criticou Arinç.
O vice-primeiro-ministro argumentou que a reações da imprensa estrangeira se devem ao mal-estar que sentem com o governo do Partido de Desenvolvimento e Justiça (AKP).
"Os países estrangeiros fazem isso para debilitar o poder da Turquia e seu êxito econômico", assegurou, seguindo a mesma tese defendida ontem pelo primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan.
Arinç disse que muitos manifestantes "recebem ordens" através de plataformas como o Twitter nos Estados Unidos.
"Eles são responsáveis disto. Através das redes sociais da internet se expandem mentiras, como a de que a polícia está usando gás laranja ou gás sarin", concluiu Arinç.
O quinto dia dos protestos começou em calma, com uma greve de 48 horas do principal sindicato de funcionários públicos, que por enquanto não está afetando o dia a dia da população.
No entanto, estão programadas novas manifestações contra o governo para esta tarde nas principais cidades do país.




Para saber mais:
Governo recua após dois dias de violentos protestos na Turquia
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2013/06/01/interna_mundo,369138/governo-recua-apos-dois-dias-de-violentos-protestos-na-turquia.shtml

Brasileiros relatam conflitos e 'apagão midiático' em Istambul

Da BBC Brasil – 03/06/2013

Ao chegar em Istambul de ônibus na sexta-feira, o fotógrafo armênio-brasileiro Stepan Norair deparou-se com um cenário desolador. "Havia muitos destroços nas ruas e pessoas intoxicadas por gás lacrimogêneo: alguns vomitavam, outros tinham dificuldade para enxergar ou usavam máscaras de gás lacrimogêneo artesanais para tentar se proteger. Eu mesmo tive sangramentos na boca e no nariz e meus olhos ficaram vermelhos", contou à BBC Brasil.
Stepan vinha do interior do país, onde está trabalhando em uma série de documentários sobre a história da comunidade armênia na Turquia. O ponto final de seu ônibus era justamente na Praça Taksim, epicentro das manifestações contra o governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, que nos últimos quatro dias se espalharam para diversas cidades turcas.
Na sexta-feira, dia 31 de maio, policiais reprimiram duramente um protesto contra um projeto de urbanização do Parque Gezi, nas proximidades da Praça Taksim - e o confronto foi o estopim para a onda de manifestações contra o governo.
Segundo informações oficiais, 1,8 mil pessoas teriam sido presas desde então. A organização Anistia Internacional divulgou que os protestos teriam deixado dois mortos e centenas de feridos, mas seus relatos não foram confirmados.
"Quando saí de casa no sábado havia vidros quebrados, sinais de destruição e sujeira por todos os lados", conta o estudante brasileiro Jairo do Amaral, que há dois anos estuda arquitetura na Universidade de Bahçeşehir.
Jairo tem vários colegas que estão participando dos protestos e diz que um deles teria tido o rosto desfigurado por golpes da policia.
Ele passou o fim da tarde de sábado em Taksim e conta que, na ocasião, o clima entre os manifestantes que haviam ocupado o local era de "festa". "A polícia não agiu contra os que estavam na praça nesse dia, mas ficamos sabendo que à noite invadiu minha universidade porque ela estava ajudando a abrigar e tratar manifestantes feridos", conta o brasileiro.
"Moro a 1,5 quilômetro do campus e ao chegar em casa tive de fechar a janela: respirava-se gás lacrimogêneo em todo o bairro de Beşiktaş e havia muitos policiais nas proximidades."
Cobertura
O que mais parece ter impressionado Jairo, porém, é algo que também chamou a atenção de outros brasileiros na Turquia.
"Há uma espécie de apagão midiático no país", denuncia uma operadora de turismo brasileira, que vive na Turquia há dez anos e não quis se identificar por medo de represálias.
"Com exceção da Halk TV (vinculada à oposição), todas as outras emissoras estão dedicando muito pouco tempo e espaço para a cobertura dos protestos e quem quer se informar sobre eles precisa buscar emissoras internacionais ou mídias sociais."
A brasileira conta que trabalha perto de Taksim - o que lhe permite acompanhar o que acontece na região.
"No momento em que os conflitos na praça estavam mais intensos, até a CNN turca preferiu levar ao ar um documentário sobre pinguins", completa a brasileira, repetindo uma informação que vem sendo divulgada por mídias sociais, mas não foi confirmada pela emissora americana.
"Os jornais e TVs noticiam que há centenas de pessoas se manifestando, quando na verdade há centenas de milhares", acrescenta Stepan.
Os manifestantes acusam Erdogan, do Partido Justiça e Desenvolvimento (Adalet ve Kalkınma Partisi, ou AKP) de ser muito autoritário e adotar, pouco a pouco, medidas para acumular poder e "islamizar" a Turquia, minando a separação entre religião e Estado que é um dos legados do líder nacionalista Mustafá Kemal Ataturk.
Erdogan nega as acusações e diz que as manifestações estão sendo instigadas pelo opositor Partido Republicano do Povo (Cumhuriyet Halk Partisi, ou CHP) para desestabilizar seu governo. "O principal partido de oposição, CHP, está instigando cidadãos inocentes (a protestarem). Mas quem está chamando esses eventos de Primavera Turca (em alusão à Primavera Árabe) não conhecem a Turquia", disse o premiê nesta segunda-feira.
Segundo os brasileiros ouvidos pela BBC Brasil, as manifestações antigoverno são generalizadas. "Há panelaços e buzinaços por toda a cidade e, durante os protestos, quem está em casa acende e apaga as luzes para sinalizar apoio", diz Jairo.
"Parece que uma parte importante da população realmente chegou ao seu limite e quer dar um basta a medidas e práticas que consideram perigosas desse governo."