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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Debates – "Os justiceiros"

Ataques de ‘justiceiros’ viram rotina no Rio (Reportagem)

Do O Dia – 10/02/2014

Rio - A onda de ataques a supostos criminosos e moradores de rua em diversos bairros do Rio — boa parte deles, menores de idade — por parte de grupos que se autointitulam ‘justiceiros’ vem se tornando rotina. A sede de ‘fazer justiça com as próprias mãos’ preocupa autoridades, amplia a polêmica sobre o assunto nas redes sociais e causa repercussão no exterior.
Um caso no Aterro do Flamengo sexta-feira levantou a discussão: um adolescente de 15 anos foi torturado e preso nu a um poste, com tranca de bicicleta no pescoço. No início da noite de ontem, em depoimento na 9ª DP (Catete), o menor, que tem três passagens pela polícia, revelou ter sido agredido por cerca de 30 homens, um deles armado com pistola.
No início da tarde de ontem, em Copacabana, um adolescente de 17 anos, que tentou roubar cordão de uma mulher, foi perseguido e detido por comerciantes. Segundo o jovem, ele teria sido agredido e teve os pés amarrados com barbantes. No dia 27, um homem roubou o celular de uma mulher na saída do Túnel Martin de Sá, na Rua do Riachuelo, no Centro, em frente a uma cabine da PM que, segundo testemunhas, estava vazia.
“A vítima gritou por socorro e, em poucos minutos, pelo menos 20 pessoas cercaram o acusado, o imobilizaram e o agrediram. Em seguida, dois PMs chegaram e o conduziram algemado para a 5ª DP (Mem de Sá)”, detalhou o presidente da Associação de Moradores da região, Moisés Muniz, que filmou e fotografou a cena.
Na filmagem, postada no Youtube, é possível perceber a ira dos moradores. “Deixa ele aqui, doutor”, grita um homem, em meio a xingamentos, enquanto os policiais conduzem o suspeito, assustado, à viatura. “Ele já é conhecido da área, integrante da Gangue da Bicicleta. Sabe como é: não tinha polícia na área, então o povo teve que agir”, justificou Moisés. A tese, aliás, é compartilhada por defensores dos ‘justiceiros’ nas redes sociais.

No Centro, ação é muito comum entre populares
O delegado da 5ª DP (Mem de Sá), Alcides Pereira, disse ‘ser comum’ suspeitos serem detidos por outras pessoas no Centro e depois conduzidos pela PM à delegacia. “A recomendação é que a polícia seja sempre acionada, obviamente, sem o suspeito ser agredido”.
Assim como sociólogos, o padre Renato Chiera, que acolhe menores infratores, condena os ‘justiceiros’. “Querem combater de maneira covarde as consequências, e não as causas do caos social”, opinou. Em nota, a PM informou que, no caso do homem preso na Rua do Riachuelo, a cabine da corporação estava vazia, porque policiais foram “acionados para ocorrências”.

Menor conta que foi agredido a chutes e teve os pés amarrados
O menor detido por comerciantes ontem contou, na 13ª DP (Copacabana), que antes de a PM chegar, foi agredido a chutes e, em seguida, teve os pés amarrados. Segundo testemunhas, ele foi pego na Rua Leopoldo Miguez. “Me chutaram e amarraram meus pés com barbantes, mas consegui me soltar. A sorte é que a polícia chegou a tempo”, contou o adolescente, que responderá por furto.
Segundo a polícia, ele estaria com outro jovem, que acabou fugindo com o cordão roubado. “Deram um ‘sacode’ nele antes de a PM chegar. Todo dia tem esse tipo de ação de criminosos aqui. Ninguém aguenta mais isso”, disse um segurança que trabalha na região e preferiu não se identificar.
Na madrugada de sábado, mais um caso de violência semelhante: dois rapazes — um deles menor de idade — foram espancados na Penha, depois de terem roubado celulares de outros dois jovens na Rua Quito. Luiz Felipe Rodrigues da Silva, 23, e seu comparsa adolescente precisaram ser atendidos no Hospital Souza Aguiar, antes de ser conduzidos à 22ª DP (Penha).
O instinto de vingança de parte da população foi destacado na terça-feira pelo tabloide britânico 'Daily Mail', que publicou a foto do adolescente agredido no Flamengo com o título: “Vigilantes brasileiros pegam 'ladrão'”. Na reportagem, são citadas as discussões contra e a favor dos ‘justiceiros’ na internet.

Artista diz sofrer ameaças por ajudar jovem
A artista plástica Yvonne Bezerra de Melo disse ontem, ao entrar na 9ª DP (Catete) para depor sobre o caso do menor amarrado ao poste, que está sendo ameaçada de morte. “Estou sendo xingada porque ajudei uma pessoa que eu nem conhecia. Estou sendo acusada de estar defendendo bandidos. Estou de saco cheio dessa sociedade. P* que pariu”.
Mas, segundo a delegada-titular da 9ª DP, Monique Vidal, Yvonne não relatou as ameaças em depoimento. Na delegacia, disse apenas que foi chamada por um vizinho para socorrer o adolescente e afirmou que não procurou a polícia porque o Corpo de Bombeiros logo o levou para o Hospital Souza Aguiar, no Centro.
Segundo a policial, o depoimento não foi esclarecedor. “Ela disse que PMs também estavam no local em que o rapaz foi achado”, contou Monique Vidal. Ela investiga a ação de um grupo de jovens de classe média, que se denomina Os Justiceiros, que seriam os agressores. A delegada já pediu imagens de câmeras da região.
Monique investiga também se os 14 jovens detidos pela PM no Aterro do Flamengo na segunda-feira fazem parte da gangue. Um deles, Lucas Felício, admitiu na 9ª DP que tem agido em grupo na caça a supostos infratores, mas disse que não está envolvido na agressão ao menor.
Ontem, ele retirou do ar sua página no Facebook . “Porrada na vagabundagem mesmo”, comentava, entre outras declarações.

Grupo estava em academia e chegou em motos
Após ser torturado e amarrado a um poste pelo pescoço com uma trava de bicicleta a um poste no Flamengo, o adolescente E., de 15 anos, buscou refúgio num ambiente que se tornou familiar para ele: um abrigo municipal. Filho de um traficante morto quando ele era um bebê e proibido por quadrilha de milicianos de voltar à casa da mãe por furtar uma furadeira, em Campo Grande, na Zona Oeste, ele virou figurinha carimbada no abrigo. Só nos últimos três meses, procurou o local em busca de uma cama para dormir em cinco ocasiões.
A última foi no sábado. E., mesmo depois de ter sido torturado, não fez alarde. Só foi reconhecido ontem por uma diretora. Então, repetiu aos funcionários do abrigo a mesma versão que contaria ontem à noite na 9ª DP (Catete). Ele disse que estava com três amigos por volta das 2h30, a caminho de Copacabana, quando foi abordado por 30 homens. Eles estavam com as motos junto ao meio-fio e faziam musculação numa academia na Enseada de Botafogo.
Ele e outro amigo não fugiram porque foram ameaçados por uma pistola 9 milímetros — uma ‘nove nariguda’, como descreveu na delegacia. Em meio às agressões, o amigo dele escapou. E, antes de ser preso, disse ter ouvido: “Você vai pagar pelos que fugiram!”

Nenhum dos acusados foi identificado pela vítima
Nenhum dos 14 jovens detidos na segunda-feira, sob a suspeita de integrar um grupo de ‘justiceiros’, foi identificado pelo adolescente em depoimento. Eles foram pegos enquanto dois rapazes pediam socorro. Sem antecedentes criminais, eles serão investigados por formação de quadrilha e por corrupção de menores.
Enquanto isso, a delegada Monique Vidal busca vítimas do adolescente agredido, que é menor infrator e tem passagem pela polícia por roubo, furto e lesão corporal. “Investigar roubo a pedestre é complicado, porque é uma população flutuante. Se houvesse o policiamento ostensivo facilitaria nossa vida”, disse.



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SBT Brasil (Comentário)


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Ordem ou barbárie? (Artigo de Opinião)

Da Folha – 11/02/2014

O fenômeno da violência é tão antigo quanto o ser humano. Desde sua criação (ou surgimento, dependendo do ponto de vista), o homem sempre esteve dividido entre razão e instinto, paz e guerra, bem e mal.
Há quem tente explicar a violência, a opção pela criminalidade, como consequência da pobreza, da falta de oportunidades: o homem fruto de seu meio. Sem poder fazer as próprias escolhas, destituído de livre-arbítrio, o indivíduo seria condenado por sua origem humilde à condição de bandido. Mas acaso a virtude é monopólio de ricos e remediados? Creio que não.
Na propaganda institucional, a pobreza no Brasil diminuiu, o poder de compra está em alta, o desemprego praticamente desapareceu... Mas, se a violência tem relação direta com a pobreza, como explicar que a criminalidade tenha crescido em igual ou maior proporção que a renda do brasileiro? Criminalidade e pobreza não andam necessariamente de mãos dadas.
Na semana passada, a violência (ou a falta de segurança) voltou ao centro dos debates. O flagrante de um jovem criminoso nu, preso a um poste por um grupo de justiceiros deu início a um turbilhão de comentários polêmicos. Em meu espaço de opinião no jornal "SBT Brasil", afirmei compreender (e não aceitar, que fique bem claro!) a atitude desesperada dos justiceiros do Rio.
Embora não respalde a violência, a legislação brasileira autoriza qualquer cidadão a prender outro em flagrante delito. Trata-se do artigo 301 do Código de Processo Penal. Além disso, o Direito ratifica a legítima defesa no artigo 23 do Código Penal.
Não é de hoje que o cidadão se sente desassistido pelo Estado e vulnerável à ação de bandidos. Sobra dinheiro para Cuba, para a Copa, mas faltam recursos para a saúde, a educação e, principalmente, para a segurança. Nos últimos anos, disparou o número de homicídios, roubos, sequestros, estupros... Estamos entre os 20 países mais violentos do planeta. E, apesar das estatísticas, em matéria de ações de segurança pública, estamos praticamente inertes e, pior: na contramão do bom senso!
Depois de desarmar os cidadãos (contrariando o plebiscito do desarmamento) e deixá-los à mercê dos criminosos, a nova estratégia do governo, por meio do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, é neutralizar a polícia, abolindo os autos de resistência.
Na prática, o policial terá que responder criminalmente por toda morte ocorrida em confronto com bandidos. Em outras palavras, é desestimular qualquer reação contra o crime. Ou será que a polícia ousará enfrentar o poder de fogo do PCC (Primeiro Comando da Capital) ou do CV (Comando Vermelho) munida apenas de apitos e cassetetes?
Outra aliada da violência nossa de cada dia é a legislação penal: filha do "coitadismo" e mãe permissiva para toda sorte de criminosos. Presos em flagrante ou criminosos confessos saem da delegacia pela porta da frente e respondem em liberdade até a última instância.

No Brasil de valores esquizofrênicos, pode-se matar um cidadão e sair impune. Mas a lei não perdoa quem destrói um ninho de papagaio. É cadeia na certa!
O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), o Estatuto da Impunidade, está sempre à serviço do menor infrator, que também encontra guarida nas asas dos direitos humanos e suas legiões de ONGs piedosas. No Brasil às avessas, o bandido é sempre vítima da sociedade. E nós não passamos de cruéis algozes desses infelizes.
Quando falta sensatez ao Estado é que ganham força outros paradoxos. Como jovens acuados pela violência que tomam para si o papel da polícia e o dever da Justiça. Um péssimo sinal de descontrole social. É na ausência de ordem que a barbárie se torna lei.

RACHEL SHEHERAZADE, 40, jornalista pela Universidade Federal da Paraíba, é âncora do telejornal "SBT Brasil"


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A subsombra desumana de Raquel Sheherazade (Artigo de opinião)

Da Carta Capital – 06/02/2014

"A mais triste nação, na época mais podre, compõe-se de possíveis grupos de linchadores".

Esta frase é, na verdade, um verso de Caetano Veloso, que, no início na década de 1990, indignado com uma onda de linchamentos no Brasil ainda subdesenvolvido, escreveu a canção "O cu do mundo". Recorrendo ao fato linguístico de que palavra "cu" poder ser classificada como adjetivo ou substantivo comum, Veloso canta que o Brasil , "cu do mundo" (periferia das potências e dos centros de decisão da política internacional), seria, pela frequência com que linchamentos acontecem por esse sítio, um "cu" (no pior sentido desse "adjetivo esdrúxulo": sujo, fedido, péssimo, insuportável).
O linchamento é - imagino que todos saibam disso - a violência dura (espancamentos e assassinatos) perpetrada por um grupo de pessoas como punição contra um indivíduo acusado de ter praticado algum delito, mas sem o devido processo judicial e em detrimento dos direitos fundamentais de toda pessoa humana garantidos pelas leis.
Há uma controvérsia sobre a origem da palavra "linchamento". Alguns autores a atribuem ao coronel Charles Lynch, que fazia "justiça com as próprias mãos" durante a guerra de independência dos Estados Unidos. Outros, porém, defendem que a palavra é derivada do fato de o capitão William Lynch, do estado da Virgínia, ter mantido, por volta de 1780, um grupo de pessoas que, à margem da lei, punia com morte violenta os inimigos.
Em ambos os casos, a violência praticada pelo grupo contra os delinquentes reais ou supostos estava eivada de ódio racial contra os índios e os negros. Aliás, esses grupos foram o embrião da Ku Klux Klan.
Duas décadas depois daquele desabafo em forma de canção feito por Caetano Veloso, a "subsombra desumana dos linchadores" a que ele se refere volta a escurecer o céu de nosso frágil estado democrático de direito.
Em Goiânia, moradores de rua são exterminados com requintes crueldade por "justiceiros" anônimos "cansados" dos pequenos delitos ou simplesmente da feiura que os sem-teto trazem à paisagem urbana (anônimos porque não há, por parte das polícias locais, boa vontade de empreender uma investigação rigorosa e eficaz que os identifique e possibilite que sejam punidos na forma da lei).
Na capital paulista, além dos moradores de rua, principalmente aqueles entregues ao abuso do crack, são vítimas de "justiceiros" também homossexuais e travestis, abatidos por espancamentos e/ou assassinatos cada vez mais violentos.
No Rio de Janeiro, capital, homeless pardos, malandros pretos, ladrões mulatos e outros cidadãos quase pretos considerados "suspeitos" por causa da cor da pele e/ou do jeito que se vestem que costumam frequentar o Aterro do Flamengo foram alvos de uma reação violenta de "justiceiros" locais, que, para mostrar o quanto desdenham das garantias jurídicas e o quanto se consideram acima das leis, ataram a um poste, com uma trava de bicicleta, um dos malandros pretos espancados (um adolescente despido de sua roupa e dignidade).
A reação clara e inequivocamente criminosa dos "justiceiros" e linchadores cariocas à presença da população marginal no parque que consideram seu ganhou, de imediato, o aval e o estímulo (sim, estímulo!) da jornalista Raquel Sheherazade, âncora do Jornal do SBT, emissora que ocupa o segundo lugar em audiência.
Sheherazade não só defendeu abertamente o linchamento do menor como afirmou que as pessoas "de bem" não têm outra resposta para o "estado de violência" que não a "justiça com as próprias mãos" (claro que ela estava se referindo apenas aos delitos praticados pelos pobres e negros, já que defendeu e justificou a delinquência do astro pop Justin Bieber), desprezando o - e debochando do - papel das polícias, do Ministério Público, do poder judiciário e dos defensores dos Direitos Humanos na mediação dos conflitos em sociedade.
Acontece que, sendo o linchamento ou justiça por conta própria crimes previstos no nosso código penal, a apologia e o estímulo a estes crimes também constituem um crime! E aí?
Embora o nome de Raquel Sheherazade circulasse por textos de ativistas indignados com suas opiniões tão medíocres quanto reacionárias, eu, até então, não tinha dado muita atenção a ela; nem mesmo quando me citou de maneira negativa em sua fervorosa defesa da permanência do deputado pastor Marco Feliciano na presidência da CDHM da Câmara, apesar das acusações de racismo e homofobia que pesavam sobre ele.
Para mim, até então, Sheherazade não passava de uma mulher cafona, fundamentalista religiosa, limitada intelectualmente e de repertório cultural estreito - uma espécie de Afanásio Jazadji de tailleur - que caiu nas graças de Sílvio Santos. Não tinha, portanto, motivos para lhe dar atenção. Agora, porém, depois de sua apologia ao linchamento e da boa recepção que esta teve nas redes sociais, não posso mais ignorá-la: preciso enfrentá-la!
O elogio de Sheherazade e seus simpatizantes aos "justiceiros" do Aterro do Flamengo materializa a velha tendência de se buscar, no que diz respeito à segurança pública, "soluções biográficas para contradições sistêmicas", como diz o sociólogo alemão Ulrich Beck. Isso quer dizer que a jornalista e sua gente pertencem à tradição que trata a delinquência fruto das históricas desigualdade e injustiça sociais com métodos de tortura ou execução sumária dos delinquentes, ignorando o sistema que os produzem.
Se nos encontramos num "estado de violência", como ela diz, é também porque seu discurso e o de boa parte da mídia associam pobreza e negritude à criminalidade, desumanizando as populações das periferias e as expulsando da comunidade moral.
Em sua visão de mundo estreita e sustentada em preconceitos, Sheherazade e os que lhe aplaudem, consideram a defesa dos Direitos Humanos dos pobres e dos marginais um estorvo para a segurança do "cidadão de bem". Ora, isso não passa de estupidez!
Esses direitos, em sua formulação consagrada internacionalmente, são de todos e todas e não apenas de Raquel Sheherazade e sua turma. Os direitos à vida e à integridade física, bem como o direito à defesa num julgamento justo, não podem ser entendidos como privilégios de gente branca que mora em bairros privilegiados e tem renda para o consumismo - que é como Sheherazade os entendem. Esses direitos são também daquele adolescente espancado e atado a um poste por uma trava de bicicleta! Como a jornalista cafona se sentiria se um grupo de pessoas, fazendo "justiça com as próprias mãos", decide linchá-la por sua apologia ao linchamento? Sheherazade deveria refletir sobre essa pergunta antes de estimular a barbárie mais uma vez.
Desacreditar o Estado Democrático de Direito em cadeia nacional para defender linchamento de um adolescente negro, pobre e supostamente delinquente é apodrecer nossa época; é fazer, do Brasil, o cu do mundo!

Jean Wyllys é jornalista e linguista, deputado federal pelo PSOL-RJ e integrante da frente parlamentar em defesa dos direitos LGBT.

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-subsombra-desumana-de-raquel-sheherazade-8276.html

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A volta do Pelourinho (Artigo de opinião)

Da Folha – 11/02/2014

A foto de um adolescente negro, deixado nu, sangrando após golpes de capacete e amarrado a um poste por uma trava de bicicleta correu o mundo. Ressuscitou-se o Pelourinho 125 anos após "o fim da escravidão", para regozijo de quem sempre está pronto para empinar o chicote e fazer justiça com as próprias mãos. Como se essa violência não gerasse mais violência e insegurança, em nome da segurança. Querem substituir o Estado pela barbárie.
Diante da gravidade do fato, em vez de negar a barbárie, a jornalista Rachel Sheherazade, no jornal do SBT, em horário nobre, não só achou justificável a ação dos 30 justiceiros, como estimulou a atitude do que ela chamou de "vingadores". Ou seja, milícias, gangues e bandos que operam à margem da lei.
O que é isso senão apologia ao crime, à tortura, ao linchamento, ao justiçamento? Em seu editorial, em busca de audiência e navegando no senso comum e no desespero da população com a violência, a âncora conseguiu violar a Constituição, o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), todas as convenções de defesa dos direitos humanos, o código de ética dos jornalistas brasileiros, o Código Penal e o Código Brasileiro de Telecomunicações e ainda debochou: quem se apiedou do "marginalzinho" que adote um "bandido".
Por isso representamos a jornalista e o SBT junto ao Ministério Público Federal e Estadual (SP). O SBT afirmou que não se responsabiliza pelas declarações de seus âncoras, já de olho nas consequências legais. A jornalista afirmou que as críticas representavam censura. Refugiam-se covardemente na liberdade de imprensa e de opinião, mas sabem que as leis não amparam apologia ao crime, à tortura e ao linchamento.
Por outro lado, o SBT sabe que rádio e TV operam por meio de outorgas concedidas pelo Ministério das Comunicações e aval do Congresso Nacional. Não é mera propriedade privada, como querem que acreditemos. A emissora tem sim responsabilidade sobre o que apresenta e o Ministério das Comunicações e o Congresso Nacional não podem se omitir em exercer sua prerrogativa de fiscalizar as concessionárias.
Na Alemanha de Hitler, muito antes da guerra, os nazistas formaram grupos paramilitares, milícias aterrorizadoras (os Freikorps) que massacravam "inimigos" (judeus, comunistas, minorias), detonaram o monopólio da força pelo Estado e levaram o ditador ao poder. E deu no que deu. Aqui, o inimigo dos Freikorps do bairro do Flamengo são os jovens, negros e pobres, infratores ou não. Negam o Estado democrático de Direito e pretendem, com a criação de força paralela, com tortura e eliminação física, enfrentar a delinquência esquecendo o sistema que a gera. As históricas desigualdades e injustiças não podem ser resolvidas pela barbárie, mas pelo acolhimento do Estado.
Defendemos a total liberdade de opinião. Mas, é um retrocesso entender que incitação ao crime está resguardada pela liberdade de expressão. O compromisso constitucional brasileiro é com a construção de uma sociedade fraterna, justa e solidária. Nosso país não precisa de milícias ou grupos de extermínio. O que precisamos é de mais educação, política social, segurança pública, distribuição de renda e igualdade de direitos. Única maneira de se conseguir a paz.

IVAN VALENTE, 67, é deputado federal por São Paulo e líder da bancada do PSOL na Câmara

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

ONU acusa Vaticano de 'sistema de ocultação' de abusos contra crianças

Do Estadão – 16/01/2014

GENEBRA - A Organização das Nações Unidas (ONU) acusa o Vaticano de manter um "sistema de ocultação" de crimes sexuais contra crianças, de não colaborar com a Justiça e pede que a Santa Fé revele qual a dimensão dos casos envolvendo padres pelo mundo. Na quinta-feira, 16, o papado de Francisco enfrenta seu primeiro grande teste internacional, ao ser examinado pelo Comitê de Direitos da Criança das Nações Unidas sobre o que tem feito para proteger menores contra abusos sexuais.
O Vaticano admitiu a existência de abusos sexuais cometidos pelo clero contra crianças e alertou que os crimes "não podem ser ignorados por outras prioridades ou interesses". Mas os relatores querem mais transparência por parte do Vaticano. Sara Oviedo Fierro, relatora da ONU, foi uma das que lideraram o questionamento. Segundo ela, a Igreja mantém 200 mil escolas pelo mundo, com 50 milhões de alunos.
"O que tem sido implementado de fato? Quantas pessoas foram consideradas culpadas? Quantos padres foram entregues para a Justiça?", questionou.
Sara Fierro apontou que sanções adotadas pelo Vaticano são vistas como não sendo da mesma magnitude do crime e que o "interesse do clero parece ser mais importante do que o interesse da criança". "Existe um sistema de ocultação dos crimes", afirmou.


A relatora ainda acusa o Vaticano de não estar divulgando os números reais do problema. "Vocês estão dispostos a expor a dimensão do problema ao mundo? Vocês sabem o número de casos. Por que não difundir?"
Já Silvano Tomasi, núncio do Vaticano na ONU, nega que o Vaticano esteja escondendo dados. Segundo ele, desde 2006, a Santa Sé publica o número de casos de abusos sexuais que chegaram até a Igreja. "Em 2012, temos informação sobre 612 casos de abusos sexuais, dos quais 418 deles envolvem crianças", declarou. O Vaticano, porém, admite que não tem e não publica o número final de casos de pessoas que tenham sido punidas ou colocadas na prisão. "O processo não é público", declarou.
Entre 2006 e 2012, o Vaticano confirma que recebeu mais de 3 mil casos de abusos sexuais cometidos pelo clero. Mas não informa quantos foram punidos e nem se os responsáveis foram impedidos de praticar suas missões religiosas.
Para Kirsten Sandberg, presidente do Comitê da ONU, a falta de punição no Vaticano impera. "A maioria dos padres tem se beneficiado da impunidade", acusou. "As leis canônicas impõe o silêncio sobre as vítimas e existem inúmeros casos nos quais a Santa Sé se recusou a colaborar com a Justiça local", completou.
Ativista e vítima de abusos sexuais, Miguel Hurtado também contestou a avaliação do Vaticano: "Os dados estão escondidos. O Vaticano concentra todos esses dados. Publicá-los seria uma forma de prevenir novos casos."
Silvano Tomasi alegou que a Santa Sé tem modificado suas leis e, nos últimos meses, abriu um processo contra um funcionário por abusos sexuais contra crianças fora do território da Cidade do Vaticano. "Não há desculpas. Esses crimes não têm justificativa nas estruturas da Igreja", insistiu.

OMS
Usando dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o núncio do Vaticano indicou que 150 milhões de meninas pelo mundo são alvo de abusos sexuais em diferentes instâncias da sociedade, além de 73 milhões de garotos, numa tentativa de mostrar que o problema não é apenas da Igreja. Tomasi pediu que a ONU faça sugestões para "ajudar" na luta contra o problema e garantiu que novas medidas estão sendo tomadas.
"Os abusos são cometidos pelo clero e outros funcionários da Igreja. Isso é muito sério, porque estão em posição de confiança e devem proteger a criança", disse. "Essa relação é de confiança e por isso é crítica", acrescentou.
O Vaticano aderiu ao tratado que protege menores em 1990 e, em 1994, apresentou uma série de informações para a ONU. Mas passou a permanecer em silêncio até que, em 2012, voltou a dar satisfações para a entidade.
A ONU pediu agora que o Vaticano entregue detalhes de todos os casos conhecidos de abusos sexuais contra crianças. O número estimado seria de 4 mil. Mas a Santa Sé aponta que é responsável pela implementação do tratado de proteção a menores apenas dentro do seu território, a Cidade do Vaticano, onde vivem 31 crianças.

Casos relatados de abusos sexuais para a Santa Sé:

2006 - 362 casos
2007 - 365 casos
2008 - 224 casos (191 deles contra menores)
2009 - 223 casos
2010 - 643 casos
2011 - 599 casos (404 contra menores)
2012 - 612 casos (418 contra menores)
Total: 3.029
Fonte: Vaticano

Violência marca primeiro dia de referendo no Egito

Da BBC Brasil – 14/01/2014

Confrontos e mortes marcaram, na terça-feira, dia 14, o primeiro dia de referendo sobre uma nova Constituição para o Egito. A Constituição, que pode levar à realização de novas eleições presidenciais, foi elaborada por um grupo nomeado pelo governo interino após o presidente Mohammed Morsi, da Irmandade Muçulmana, ter sido deposto pelo Exército, em julho de 2013.
O governo interino militar tem feito intensa campanha pelo "sim" no referendo, na expectativa de obter endosso popular à derrubada de Morsi. Mensagens de apoio à Constituição dominam a programação de rádios e TVs estatais, e pessoas foram presas por pendurar cartazes defendendo o "não". Já a Irmandade Muçulmana, que passou a ser considerada "grupo terrorista", está boicotando a votação. E enfrentamentos envolvendo simpatizantes de Morsi e forças de segurança foram registrados em diversas partes do Egito, provocando, segundo autoridades, ao menos nove mortes.


'Cerimônia democrática'
Uma enorme operação de segurança foi montada para os dois dias do referendo, com a presença de 160 mil soldados e mais 200 mil policiais. A imprensa estatal passou a terça-feira, dia 14, descrevendo a votação como uma "cerimônia democrática" - termo frequentemente usado durante a era Hosni Mubarak, mas não escutado desde que o presidente foi derrubado na revolução popular de janeiro de 2011.
A Constituição foi redigida por 50 membros de um comitê que incluiu apenas dois representantes de partidos islâmicos. Autoridades alegam que sua aprovação será um passo crucial para a estabilidade do país, profundamente polarizado desde 2011. Mas não há indicativos de que a polarização esteja diminuindo. De um lado, parte dos eleitores crê que a nova Carta traz avanços em relação à Constituição redigida durante o governo islamita de Morsi.
De outro, críticos dizem que o novo texto favorece o Exército e não condiz com as expectativas criadas após a derrubada de Mubarak.

Liberdade religiosa
O texto sendo referendado prevê que presidentes egípcios possam servir dois mandatos de 4 anos e possam sofrer impeachment pelo Parlamento. A Constituição também determina que o islã permanece sendo a religião do Estado, mas prevê liberdade religiosa e algumas proteções a minorias; cabe ao Estado garantir a igualdade entre homens; partidos não podem ser formados com base em "religião, raça, gênero ou geografia"; cabe ao Exército nomear o ministro da Defesa pelos próximos oito anos.
A expectativa é de que o "sim" vença, o que pode resultar na realização de uma nova eleição presidencial. É praticamente certo que o general Abdel Fattah al-Sisi, que lidera o governo interino - e que apoiou a remoção de Morsi, após protestos populares -, concorrerá ao cargo.


domingo, 1 de setembro de 2013

Ex-aluno que foi estuprado e que realizou disparos na USP afirma ser vítima de bullying

Do G1 – 29/08/2013

O ex-aluno da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos, que invadiu um alojamento do campus na noite de quarta-feira, dia 28, e efetuou alguns disparos, relatou ao G1 por telefone na quinta-feira (29) que sofre bullying dos estudantes na universidade e na internet há pelo menos seis meses, depois que denunciou ter sofrido um suposto abuso sexual em um trote. Ele afirmou que foi armado à universidade porque estava com raiva. "Eu estava totalmente desequilibrado", disse.
A Polícia Civil pediu a prisão temporária do jovem, que continua foragido. A USP informou, em nota, que vai reforçar a segurança na universidade com a ajuda da Polícia Militar a partir da sexta-feira (30). Os estudantes do alojamento estão com medo de voltar ao local.

Bullying
Segundo o rapaz de 23 anos, os alunos utilizavam as redes sociais para pressioná-lo. “Isso persistiu até a semana passada (dia 19). Faziam palhaçadas com a minha foto e brincadeiras sem graça com fotos de animais. Eu estava tentando preservar o que restava da minha imagem”, contou.
O ex-aluno do curso de ciências exatas, que trancou a matrícula após o episódio ocorrido em março, disse ainda que também sofria ameaças e difamações quando postava alguma crítica no Facebook em relação à situação que vivenciava. “Dei minha opinião em um dos grupos sobre determinado assunto e disseram assim: ‘estupra, mas não mata’, se referindo a mim”, contou.
O estudante disse que ficou cada vez mais revoltado com a hostilidade sofrida. Ele também afirmou que estava bem depressivo pelo fato de ter abandonado a faculdade. “Nem sou mais aluno e mesmo depois de ter saído continuaram me perseguindo. Eles sabiam que isso chateava, eu pedia para parar, mas não paravam”, relatou.
Ele também acusou a universidade de ser omissa diante dos casos de violência. "A violência dentro da USP é uma coisa bastante descarada, vulgar. A universidade tem conhecimento disso, mas não toma providência, é bastante negligente. Foi um dos motivos que me fez desistir da universidade", afirmou. Procurada pelo G1, a USP não comentou as acusações.

Tiros
O ex-aluno disse que foi à universidade durante a tarde da quarta-feira, dia 28, para acessar a internet do local. Ao chegar, se deparou com um dos estudantes que, segundo ele, participou das agressões no alojamento seis meses atrás. “Ele foi bastante hostil comigo e tivemos um bate-boca”, relatou.
Segundo o ex-aluno, ele foi para casa com raiva e à noite voltou à USP, armado. Ele se recusou a falar quando e como conseguiu o revólver. Na universidade, disse ter encontrado outro estudante que também participou do incidente no alojamento. O rapaz acabou levando uma coronhada porque desobedeceu a ordem de ficar parado.
“Ele fez um movimento brusco e me assustei. Eu estava com arma abaixada, não apontada. Foi uma forma de intimidar. Eu não pensava em atirar. Dei uma coronhada e acabou disparando. O primeiro foi acidental, depois o pessoal começou a correr, disparei mais duas vezes. Na minha cabeça passou pouca coisa aquela hora, a consciência mesmo estava nula. Não pensava em muita coisa”, contou.

O ex-aluno disse que atirou para o alto sem mirar em ninguém, mas que tomaria outra atitude como reação de defesa caso tentassem tomar a arma dele. Disse ainda que foi a primeira vez que atirou. Os disparos acertaram as paredes e as janelas do alojamento, mas não atingiram ninguém. O estudante que levou a coronhada foi socorrido à Santa Casa, medicado e liberado.
“Eu não estava mais respondendo por mim. Quando atirei não, pensei em nada, estava totalmente desequilibrado. Eu me sinto vítima, não tenho culpa disso. Se estou desequilibrado, é porque o pessoal não para de me atormentar", declarou.

Fuga
O estudante contou que após a ação fugiu de bicicleta para Araraquara, que fica a 43 quilômetros de São Carlos, e que dormiu sentado na rodoviária. “Tentei procurar um hotel para ficar, mas não achei nenhum de custo acessível. Comi um lanche, estava com pouco dinheiro, fiquei até certo horário e depois peguei um ônibus”, relatou. Ele afirmou que se desfez da arma, mas não deu detalhes.
O jovem disse que não falou nada para o pai, que mora na capital, porque ele sofre com problemas de saúde. Para a mãe, contou apenas que aconteceu algo, mas sem se aprofundar.
O estudante ressaltou que não irá se apresentar à polícia até ligar para a universidade nos próximos dias para fazer algumas cobranças, principalmente em relação ao que foi apurado na sindicância sobre o susposto abuso.
“Eu torço para que as pessoas que cometeram o erro se arrependam porque estão me dando esse transtorno há muito tempo, o que mexe com o meu psicológico. É divertido para eles ficar me aborrecendo”, concluiu.

Suspensão das aulas e segurança
A Universidade de São Paulo (USP) suspendeu as aulas de graduação em São Carlos na quinta-feira (29), para garantir a segurança dos estudantes. Em nota, divulgada durante a tarde, a assessoria de imprensa informou que, após uma reunião entre dirigentes do campus e a PM, foi decidido que a segurança será intensificada.
"Como providência imediata, foi definida a intensificação da fiscalização e do patrulhamento no interior e ao redor do campus, através do trabalho conjunto entre a Superintendência de Prevenção e Proteção Universitária da USP e a Polícia Militar, tendo como objetivo uma maior percepção de segurança", diz um trecho da nota.


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Lei que cria sistema de combate à tortura é elogiada

Do Consultor Jurídico – 06/08/2013

Foi publicada na segunda-feira, dia 5 de agosto, a Lei 12.547/2013, que institui o Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, para fiscalizar, combater e reprimir a prática de tortura nas prisões do país. A edição da lei, sancionada pela presidente Dilma Rousseff, veio cinco anos depois de o Brasil ter assumido, junto à Organização das Nações Unidas, o compromisso de criar um mecanismo estatal de prevenção à tortura e melhoria das condições do sistema carcerário.
Com a nova lei, sancionada na sexta-feira dia 2, fica criada uma estrutura específica para o tema dentro da Secretaria de Direitos Humanos, que trabalhará com o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNCP), do Ministério da Justiça. Com a nova organização, a Secretaria de Direitos Humanos passa a abrigar o Comitê Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, que será o responsável pelo Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura.
De acordo com o texto da lei, o Comitê Nacional fica responsável pela coleta de informações, elaboração de políticas públicas, acompanhamento de propostas legislativas e das políticas elaboradas pelos municípios, estados e Distrito Federal. O comitê será composto por 23 membros com dois anos de mandato: 11 indicados pelo governo federal e 12 indicados por entidades da sociedade civil. O presidente do comitê será sempre o ministro-chefe da Secretaria de Direitos Humanos. O vice será eleito pelos membros.
O Mecanismo Nacional fará parte do Comitê Nacional e será composto por 11 técnicos escolhidos pelo comitê. O pré-requisito é que tenham “notório conhecimento e atuação e experiência na área de prevenção e combate à tortura”. Entre as atribuições do Mecanismo Nacional estão visitar, vistoriar e fiscalizar as unidades de encarceramento para prevenir e combater a prática de tortura. Também compete ao Mecanismo fazer a articulação técnica e política com o Subcomitê de Prevenção à Tortura da ONU.
A nova lei também permite aos estados criar seus próprios mecanismos de combate e prevenção à tortura. Hoje, apenas Paraíba; Pernambuco; Alagoas; Espírito Santo; e Rio de Janeiro têm leis próprias para o combate à tortura nas prisões. No caso capixaba, o Tribunal de Justiça lançou campanha para acompanhar de perto as denúncias de tortura nos presídios do estado, com fotos e críticas abertas à prática e à postura do Executivo.

Números preocupantes
Em 2012, o Brasil registrou 548 mil presos, segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), do Ministério da Justiça. Um ano antes, eram 500 mil presos. Em relação à situação de dez anos atrás, o número de encarcerados no país subiu mais de 200%.
De acordo com levantamento feito pela ONG Conectas Direitos Humanos, os dados fazem da população carcerária do Brasil a quarta maior do mundo, atrás de Estados Unidos, China e Rússia. O grupo protesta contra o fato de não haver dados precisos sobre as práticas de tortura no Brasil e afirma que “o sistema prisional brasileiro é historicamente palco de graves e profundas violações de direitos humanos”.
Em artigo publicado na ConJur neste domingo (4/8) — clique aqui para ler —, os diretores da Conectas Lucia Nader e Marcos Fuchs criticam a “ocorrência sistemática de tortura e maus tratos, situação agravada por não haver mecanismos adequados de controle interno e externo desses tipos de violações” nos presídios do país. Citam o exemplo de um homem que, preso em Rio Branco, foi torturado por seis agentes penitenciários e ficou surdo e paraplégico. Hoje, está internado em estado grave em um hospital da capital acreana.
Por isso é que os diretores da ONG consideram a sanção da Lei 12.547, que instituiu o Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, “um grande passo” para o Brasil. O artigo, intitulado "Mecanismo Nacional de Prevenção é passo histórico contra a tortura", é uma crítica à cultura de violência no combate ao crime e no sistema carcerário no país. “O Mecanismo pode, apesar disso, ser um passo histórico para que o Brasil deixe o quanto antes de ser esse gigante de pés de barro — cheio de pretensões sofisticadas em relação ao mundo, mas marcado por mazelas medievais em seu próprio dia a dia”, dizem os autores no texto.
Para explicar as transformações potenciais trazidas pela Lei 12.847, a Conectas elaborou um infográfico, que pode ser visto acima.

PARA SABER MAIS:
Artigo citado na matéria “Mecanismo Nacional de Prevenção é passo histórico contra a tortura: http://www.conjur.com.br/2013-ago-03/mecanismo-nacional-prevencao-passo-historico-tortura2

Mais um passo contra a tortura

Do Brasil de Fato – 01/08/2013

Homens sem roupas, agredidos e abandonados à própria sorte. Esse foi o cenário encontrado pela Defensoria Pública do Mato Grosso na cadeia pública de Campo Novo do Parecis, a 397 quilômetros de Cuiabá. A denúncia partiu do pai de um dos presos e levou a defensora pública Jacqueline Gevizier Nunes Rodrigues até o local.
Na cadeia, ela se deparou com quatro presos em uma cela de isolamento sem qualquer tipo de iluminação. Jogados sobre dois colchões, os detentos apresentavam marcas de uso de gás de pimenta nos olhos e em parte dos corpos.


A história ocorreu em maio deste ano e ganhou repercussão nacional. Longe de ser um caso isolado, o episódio escancarou uma realidade antiga e comum no Brasil, a prática de tortura contra pessoas em situação de cárcere. Preocupação antiga de entidades de direitos humanos, a luta contra a tortura pode ganhar um reforço importante.
Em 11 de julho, o Senado aprovou o Projeto de Lei Complementar 11/2013, que institui o Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (SNPCT). A matéria, agora, aguarda sanção da presidenta Dilma Rousseff, que tem até 2 de agosto para analisar o texto.
A criação do sistema é esperada desde 2007, quando o país ratificou o Protocolo Facultativo à Convenção da Organização das Nações Unidas, que representa o compromisso brasileiro com a construção de uma política nacional para a erradicação da tortura.
De acordo com o PLC, proposto pelo Executivo, o Sistema será composto por duas instâncias básicas: o Comitê de Prevenção e Combate à Tortura (CNPCT), integrado pelo governo federal e por representantes de organizações da sociedade civil indicados pela Presidência da República, e pelo Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT), que terá 11 peritos indicados por esse Comitê.
A implantação dos mecanismos é aguardada com expectativa. Para o assessor jurídico da Pastoral Carcerária e integrante do Comitê Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, José de Jesus Filho, as novas instâncias representam um passo importante para dar fim às torturas. “Acreditamos que a atuação do mecanismo vai reduzir significativamente a prática da tortura no país”, afirma.
Os peritos terão acesso livre, sem necessidade de aviso prévio, a toda e qualquer instituição fechada – centros de detenção, estabelecimentos penais, hospitais psiquiátricos, instituições de longa permanência para idosos, instituições socioeducativas para adolescentes em conflito com a lei e centros militares de detenção disciplinar.
Um dos aspectos mais importantes, para José de Jesus Filho, é a imunidade dos peritos. Durante seus três anos de mandato eles não poderão ser afastados sem a instauração de um procedimento administrativo e penal.
“Essa garantia vai permitir que os membros do mecanismo possam elaborar relatórios, entrar em diálogo com autoridades e fazer declarações públicas sobre a tortura sem que sofram retaliação”, explica. Só em 2013, a Secretaria Nacional de Direitos Humanos recebeu 466 denúncias de tortura contra a população carcerária. Segundo a coordenadora de Sistemas de Justiça e Segurança Pública do instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, a tortura costuma ser usada para contenção de presos e, principalmente, para a obtenção de confissões. Para ela, o sistema de combate e prevenção servirá para coibir esses casos. “Ter um projeto como esse aprovado é um sinal muito claro de que a tortura deixará de ser tolerada”, enfatiza.
De acordo com o Relatório sobre tortura – uma experiência de monitoramento dos locais de detenção para prevenção da tortura, elaborado pela Pastoral Carcerária, de 211 casos de tortura acompanhados pela entidade entre 1997 e 2009, 51 envolviam mais de uma autoridade, como policiais, diretores de unidades, agentes penitenciários ou delegados.

Fiscalização
Uma das principais contribuições do sistema, na avaliação do advogado e coordenador do Programa de Justiça da Conectas, Rafael Custódio, será dar maior visibilidade às questões do sistema penitenciário do país, marcado por falta de transparência e de controle por parte da sociedade.
“Esse sistema novo vem com a esperança de ser uma autoridade nacional, com especialistas, dinheiro, estrutura e vontade política para mexer nesse tema”, observa.
Com a implantação do mecanismo, o que se espera é o início de uma fiscalização mais efetiva nas unidades prisionais. Custódio lembra que o monitoramento dos estabelecimentos penais deveria ser feito permanentemente por promotores, defensores públicos e juízes, mas na prática não é o que acontece.
“Se você perguntar aos presos ‘já veio aqui algum juiz ou promotor?’, eles vão dizer que não. Essas pessoas são completamente abandonadas, principalmente nos presídios longe dos centros urbanos”, ressalta.
Com a negligência do Estado, o trabalho de coletar denúncias é feito, muitas vezes, por organizações de direitos humanos. Falta a elas, porém, estrutura e prerrogativas legais para acompanhar os casos mais de perto.
“As entidades que acompanham os presos conseguem eventualmente fazer uma análise, mas é sempre muito difícil [constatar as torturas]”, diz Carolina Ricardo. “Com a lei, a expectativa é de que isso se torne mais sistemático”, completa.
A assinatura do Protocolo da ONU, em 2007, também previa a criação de comitês estaduais de prevenção e combate a esse tipo de crime. Seis anos depois, apenas 16 estados possuem formalmente seus próprios mecanismos.
Para Custódio, a aprovação do PLC será a oportunidade para pressionar a implantação de comitês em todos os estados, principalmente em São Paulo, que concentra um terço da população carcerária brasileira. “Apresentamos uma proposta para a Secretaria de Justiça, mas eles têm deixado a gente em banho-maria”, comenta.

Sanção
A espera agora é pela aprovação de Dilma Rousseff ao projeto de lei. O assessor jurídico da Pastoral Carcerária acredita que a presidenta sancionará o texto. Ele teme, porém, mudanças no conteúdo.
“O grande risco é que a presidenta não respeite as recomendações da sociedade civil e retire a independência do mecanismo”, aponta José de Jesus Filho.
Para Carolina Ricardo, o passado de Dilma pode influenciá-la a aprovar o texto sem fazer alterações. “Considerando que a presidenta durante a época da ditadura foi vítima de tortura, esperamos que ela seja sensível ao tema e capaz de sancioná-lo na íntegra”, analisa.
A sanção, no entanto, significa apenas uma etapa. A próxima, de acordo com Rafael Custódio, é batalhar pela efetivação do sistema. “O Brasil está dando um passo muito importante no combate à tortura e agora tem que exigir a efetiva implementação e o cumprimento das regras. É um sistema que depende muito da pressão da sociedade civil para que funcione”, destaca.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Filho dos PM’s, Mídia oportunista e a falha tentativa em culpar Ezio, um personagem fictício

Do Literatortura – 07/08/2013

A mídia, sempre diante de um acontecimento inexplicável aos nossos olhos, procura o seu vilão preferido. Como o menino está morto, assim como seus pais e parentes próximos, buscou no facebook e encontrou. Não uma resposta definitiva, que ela saiu berrando aos quatro ventos [ao menos não até o momento em que escrevo esse texto], mas uma inferência, uma sugestão quase que implícita. E eu quero detalhar isso, para ninguém, ou nenhum meio de comunicação dizer que não tratou a notícia dessa maneira.
Afinal, qual o sentido em relacionar a foto de Ezio, da franquia Assassin’s Creed, com um caso brutal de violência ocorrido no Brasil? [e aqui eu nem estou afirmando que o menino tenha sido o assassino]. Tentemos entender. Ou há uma grande incoerência e aleatoriedade jornalística, à lá matérias da Ego, que publica notícias esquisitas e quis nos mostrar essa “curiosidade”, ou existe, sim, uma inferência sutil,  mas, ao mesmo tempo, bastante nítida. E isso pode soar contraditório, mas não o é.
É a típica situação que, por muitos, passa despercebida [e aí está a sutileza], mas por tantos outros, não. E até que os outros informem os muitos, os muitos vão sendo alimentados por algo meio que “subliminar”.
Opa, teoria da conspiração?!  Não, não é isso. Quem trabalha com informação/publicidade e até arte, sabe muito bem o quão comum é essa atividade. Segue abaixo o primeiro parágrafo da notícia divulgada na Folha.

O menino Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini, 12, utilizava no seu perfil do Facebook a imagem do protagonista da série de videogames chamada Assassin’s Creed. No jogo, que se passa durante o Renascimento, o personagem faz parte de uma seita de assassinos e pretende vingar a morte de seus familiares. [folha]

Dá pra sentir o sangue na sentença, não? Um sensacionalismo velado. Como se a brutalidade do fato, em si, já não fosse o suficiente para chocar o leitor/espectador. E o interessante é que a sentença não é mentirosa, mas, ao meu ver, mascarada. E veja bem, uma coisa, para mim, é você ser sensacionalista a um tombo que um famoso levou.  Escrever lá na chamada que ele ralou o corpo inteiro, quando ralou um joelho e uma mão. É bobeira? É. Mas, não fere ninguém [só o famoso, mas é de mentirinha]. Outra é, num caso que rodou o Brasil, apelar para mais violência, mais escuridão, mais morbidez.
Citei a Folha porque é sempre uma “referência” em notícia e ninguém poderá acusar que tirei de uma fonte “capciosa”. Imagine, então, o que não foi dito em veículos mais tendenciosos e sanguinários. Outro ponto que vale mencionar é uma matéria do G1:

Segundo Sandra (familiar),  Marcelinho jogava vídeogame com frequência. “Acredito que se ele jogava videogame com jogos agressivos, isso pode influenciar”, afirmou.  Outros familiares disseram que o garoto jogava tiro também, mas na maior parte das vezes era corrida ou enduro.  [g1]

O mesmo caso de Folha: se não existisse uma tendência em culpar o(s) jogo(s), por que essa pergunta teria sido feita? Pode ser, apenas, para investigar, mas investiga-se somente aquilo que possui suspeita. Interessante é que, se é para seguir tal linha, ninguém perguntou quais jornais de televisão ele assistia, ou perguntou?

Influência e poder dos games e da arte
Vamos lá, vou entrar numa área que julgo muito, muito complexa de escrever sobre.
A arte – levando em conta que os games também são arte – influencia atitudes dessa estirpe? Sim, influenciam. E a minha visão não tem nada a ver com conservadorismo. Mas, a arte influencia, sim.
De maneira bastante maniqueísta: se ela serve para o bem, também serve para o mal. Se ela serve para você imitar trejeitos dos intérpretes, serve pra imitar atitudes ruins.
Todavia – e aqui vem o ponto mais importante de tudo que está escrito no texto – influenciar não significa ter culpa [ou culpa total, caso prefiram]. De maneira alguma. Principalmente porque somos influenciáveis por absolutamente tudo o que vivemos, presenciamos, experienciamos e conhecemos. Não há nada no mundo que não possa nos influenciar. Nós não estamos imunes. Isso desde uma escala simples a uma escala grandiosa.
Não é preciso ser Bruce Wayne e ver seus pais morrerem, para ser tentado a fazer algo. Existem, obviamente, acontecimentos que mudam tudo aquilo que compreendemos como “viver”. Seja uma morte de um ente querido, uma descoberta amorosa, uma experiência numisosa, uma saga literária [quantos de vocês não admitem terem sido influenciados por Harry Potter? E a onda de “castidade” que Crepúsculo gerou? E a onda erótica que 50 tons de cinza não só revelou, mas apresentou a muitas pessoas?
Aliás, o caso de 50 tons é muito interessante.
Sua mãe até falava de sexo, mas, depois de ler a obra, passou a ser muito mais aberta ao assunto.
Pergunta:
Será que ela sempre quis ser aberta, mas nunca teve coragem e a obra libertou-a, ou será que a obra trouxe essa vontade a ela?
Para a discussão de hoje, a resposta não importa. Importa, apenas, que você compreenda o poder influenciador da arte. Se 50 tons revelou ser, sua mãe, uma conversadeira sobre sexualidade, por que não poderia revelar coisas ruins sobre as pessoas? É uma faca de dois gumes, como tudo no mundo.
E é isso que a mídia precisa entender, e é isso que eu tanto defendo nesse texto. Não podemos medir externamente a influência direta ou indireta que determinado acontecimento possui na vida do indivíduo e por isso não é plausível que a mira seja direcionada para um jogo, para um personagem, para os pais que eram policiais, ou para a “genética” – como têm dito determinados jornalistas.
Veja, é natural que o povo saia conclamando verdades, mas não deveria ser natural que o jornalismo, num caso desse, saia apontando culpados a torto e a direito, sem a menor preocupação do que isso possa causar ao seu leitor, aos envolvidos no caso e à sociedade, num todo. Onde foi parar o jornalismo investigativo? A busca incessante pela “verdade”?
Compreendo, por ter deixado o romantismo de lado há muito tempo, que esse é um procedimento comum, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Todavia, isso não serve de desculpa para um silêncio da minha parte ou da sua parte, isso não faz com que eu me sinta menos obrigado a abordar o assunto aqui. Pois, acredito que muitos leitores podem entrar com uma visão e sair com outra – e, inclusive, eu próprio, ao ler os comentários de vocês.
Quanto a ele ter a foto do personagem no perfil, não vale comentar. Se você entra no facebook, no mínimo 5% dos se us amigos devem seguir o padrão. É algo comum deeemais na internet, não serve pra embasamento nenhum. Além disso, existem assuntos muito mais importantes para o jornalismo nesse caso, como a diferença de tempo entre a morte do pai para as outras vítimas, o silêncio dos vizinhos, o depoimento do amigo, os vídeos que estão sendo divulgados etc.
Achei importante trazer a matéria aqui porque, além de tratar do social – algo que fazemos com frequência -, aborda também a arte e sua influência, dentro de um ponto que eu queria há muito tempo trazer aqui.


http://literatortura.com/2013/08/filho-dos-pms-midia-oportunista-e-a-falha-tentativa-em-culpar-enzo-um-personagem-ficticio/